O autismo é caracterizado por prejuízos na interação social, atraso na aquisição da linguagem e comportamentos estereotipados e repetitivos. Foi brilhantemente descrito pelo médico, pesquisador e professor da Johns Hopkins University, o médico psiquiatra infantil austríaco Leo Kanner, em 1943.

Historicamente vale ressaltar a importância de uma médica inglesa, psiquiatra da infância e adolescência, a Dra. Lorna Wing. Seus estudos estabeleceram a análise de três déficits principais (conhecidos por “Tríade de Wing”), existentes entre os portadores de transtornos invasivos do desenvolvimento. Essas dificuldades estão localizadas nas áreas de imaginação, socialização e de comunicação.

As dificuldades na área da imaginação estão relacionadas com o conceito da Teoria da mente. Esse conceito se aplica ao fato de que todos nós somos capazes de se colocar na posição do outro, isto é, entendemos que outra pessoa é capaz de pensar diferente de você, capaz de ter crenças, desejos e pensamentos distintos. Desta forma, somos capazes de entender as emoções e o comportamento de outras pessoas.

Basicamente, a dificuldade de relacionamento e interação social é outro grande problema no autismo infantil. A impressão é que a criança está fechada dentro de seu mundo particular e não consegue interagir com outras pessoas ou outros objetos.

A grande maioria dos pacientes autistas não fala e aproximadamente 50% deles permanecerão mudos pelo resto de suas vidas, entretanto algumas crianças podem aprender a falar pequenas frases e serem capazes de seguir instruções simples. Muitas vezes essas crianças podem realizar uma inversão pronominal, se chamando por “ele” ou “ela”.

O transtorno apresenta uma incidência de 1% de crianças e adolescentes em idade escolar e ocorre em torno de quatro vezes mais em meninos do que em meninas.

Até pouco tempo atrás, o autismo era um problema comportamental identificado por volta dos três anos de idade, entretanto, com o avanço dos conhecimentos sobre essa patologia, é possível identificá-la nos primeiros meses de vida da criança.

Essa precocidade na identificação dos transtornos invasivos do desenvolvimento é fundamental para a realização de uma intervenção precoce, pois nos oferece uma grande “janela de oportunidade” para ajudar na reversão de muitos sintomas e isso é possível apenas se o paciente é tratado precocemente.

A inteligência está comprometida em grande parte das crianças com autismo e cerca de 60% desses pacientes apresentam deficiência intelectual, contudo muitas crianças podem frequentar escolas e ter um desempenho acadêmico regular.

Os transtornos associados estão presentes na maioria dos casos e as principais condições associadas são o transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de ansiedade generalizada, transtornos de tiques e o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade.

Os pais podem procurar ajuda do pediatra, preocupados com o comportamento do filho que ainda não está falando, resiste aos cuidados paternos e não interage com outras pessoas.

Bebês com autismo apresentam grande déficit no comportamento social, tendem a evitar contato visual e mostram-se pouco interessadas na voz humana. Eles não assumem a postura antecipatória, como colocando seus braços à frente para serem levantados pelos pais, são indiferentes ao afeto e não demonstram expressão facial ao serem acariciados.

Outra característica observada em alguns bebês e crianças pequenas com transtorno invasivo do desenvolvimento é que eles podem iniciar normalmente o desenvolvimento de habilidades sociais, entretanto, de repente ocorre uma interrupção dessa evolução e a criança começa à regredir em seu desenvolvimento. Por exemplo: a criança com dois anos de idade que pára de falar, pára de mandar tchau e pára de brincar socialmente, como nos jogos do tipo péga-péga.

Quando crianças, não seguem seus pais pela casa e não demonstram ansiedade de separação dos mesmos. Não se interessam em brincar com familiares ou com outras crianças e não há interesse por jogos e atividades de grupo. Suas ações podem se limitar a atos repetitivos e estereotipados, como cheirar e lamber objetos ou bater palmas e mover a cabeça e tronco para frente e para trás.

O interesse por brinquedos pode ser peculiar, a criança pode se interessar pelo movimento circular da roda de um carrinho ou pelo barulho executado por ele, por exemplo. Essas alterações estão relacionadas com respostas não usuais a experiências sensoriais diferentes vivenciadas pela criança.

Pode ocorrer fascinação por luzes, sons e movimentos que o desperte para um interesse muito grande, por exemplo, pelo ventilador de teto ou por uma batedeira elétrica. A textura, cheiro, gosto, forma ou cor de um objeto pode também desencadear interesse peculiar na criança.

O paciente autista pode se sentir incomodado por pequenas mudanças em sua rotina diária, resultando muitas vezes em violentos ataques de raiva. Também é observado que quase a totalidade de crianças autistas resiste em aprender ou a praticar uma nova atividade.

Adolescentes autistas podem adquirir sintomas obsessivos como idéias de contaminação e apresentar também comportamentos compulsivos e ritualísticos como toques repetitivos em certos objetos pessoais, rituais de lavagem e repetição de perguntas.

 

 

SINAIS DE ALERTA EM BEBÊS 

Evita contato visual (quando é amamentado, por exemplo).

Não demonstra expressão facial ao ser acariciado.

Não sorri, quando você sorri para ele.

Indiferente ao afeto.

Pouco interessado na voz humana.

Não acompanha os objetos, quando se movem.

Não demonstra ansiedade, quando você se afasta dele.

Não eleva os braços para ser elevado do berço.

Não responde, quando chamado pelo nome.

 

 

AUTISMO NA ESCOLA 

Não aponta para objetos.

Não manda tchau.

Não entende jogos sociais, como pega-pega ou esconde-esconde.

Não utiliza gestos para se comunicar.

Não imita seu comportamento ou expressões faciais.

Não se interessa em brincar com outras crianças.

Não há interesse por jogos e atividades de grupo.

Não pede ajuda.

Interesse peculiar por brinquedos ou por partes dele.

Atos repetitivos e estereotipados.

Ataques de raiva na presença de pequenas mudanças em sua rotina diária.

Resiste em aprender ou a praticar uma nova atividade.

 

Quais são as causas?

Antigamente acreditava-se que as chamadas “mães de geladeira” seriam as causadoras do autismo infantil. O termo se refere à crianças expostas à mães que demonstravam pouco ou nenhum afeto em relação aos filhos, eram negligentes e muitas vezes violentas. As “mães de geladeira” não causam autismo, entretanto, fatores ambientais podem ter uma participação indireta no desencadeamento da doença.

As causas do autismo permanecem desconhecidas, mas diversos estudos indicam que fatores genéticos estão relacionados com a causa do transtorno. Insultos ao cérebro em desenvolvimento durante a gestação estão hipoteticamente relacionados com a origem do autismo. Nesse caso, alterações estruturais cerebrais, fatores imunológicos, neurológicos, bioquímicos, além de fatores congênitos, como rubéola, encefalite e meningite poderiam predispor a criança ao autismo.

 

O que fazer?      

Um dos grandes problemas no tratamento do autismo é a demora para a identificação dos sintomas e o consequente atraso para se fazer do diagnóstico e iniciar o tratamento. Hoje sabemos que o autismo é um transtorno do comportamento que possui “janelas de oportunidade” para intervenção. Isso significa que se esperarmos para agir, perdemos chances ímpares de promover a melhora desse paciente e limitamos a chance de obter sucesso no tratamento de determinados sintomas.

Comumente me deparo com casos em que a família demorou muito à procurar ajuda especializada, pois se deparou com profissionais que assumiram o seguinte discurso: “ele não tem nada, ele tem o tempo dele, vamos esperar.” Existem marcos importantes do desenvolvimento infantil que precisam ser respeitados, caso a criança apresente atrasos nesses marcos evolutivos, ela precisa ser investigada.

Logo, a precocidade do diagnostico e do tratamento são fundamentais. Assim, a identificação precoce do transtorno e o início do tratamento da criança ainda em idade pré-escolar pode ajudar bastante no prognóstico. Quanto mais cedo identificado o problema, melhor!

Intervenções conjuntas englobando psicoeducação, suporte e orientação de pais, terapia comportamental, fonoaudiologia, treinamento de habilidades sociais e medicação ajudam na melhoria da qualidade de vida da criança, proporcionando a melhor adaptação ao meio em que vive.

Um profissional importante no tratamento e no processo pedagógico dessa criança será o facilitador ou mediador escolar. Ele será um elo entre educadores, pais e o estudante.

O mediador escolar trabalhará auxiliando a criança na sala de aula e em todos os ambientes escolares, como um “personal trainer”, mediando e ensinando regras sociais, estimulando sua participação em sala, facilitando sua interação social com outras crianças, corrigindo rituais e comportamentos repetitivos e acalmando o estudante em situações de irritabilidade e impulsividade.

Comportamentos agressivos, auto-mutilantes, irritabilidade, instabilidade emocional, impulsividade e depressão podem melhorar muito com associação de medicamentos e técnicas de manejo comportamental.

Um tipo de tratamento comportamental que tem ganhado destaque atualmente pelo sucesso de suas intervenções é chamado Análise do Comportamento Aplicado ou ABA (Applied Behavior Analysis).

O método ABA é praticado por psicólogos experientes e consiste no estudo e na compreensão do comportamento da criança, sua interação com o ambiente e com as pessoas com quem ela se relaciona. A partir do conhecimento e do funcionamento social global da criança, são desenvolvidas estratégias e treinamentos específicos para corrigir comportamentos problemáticos e estimular comportamentos assertivos e práticos. A utilização de reforçadores positivos e recompensas são estratégias amplamente utilizadas para auxiliar no sucesso do método.

O trabalho do fonoaudiólogo é muito importante no tratamento do portador de autismo e dos transtornos invasivos do desenvolvimento, pois aproximadamente 40% dessas crianças adquirem algum grau de comunicação verbal, principalmente quando corretamente estimuladas, fato que também colabora para a melhoria de suas habilidades na interação social.

A atividade esportiva e de psicomotricidade também merecem destaque nas intervenções com crianças e adolescentes com autismo e outros transtornos invasivos do desenvolvimento, pois auxiliam muito no desenvolvimento de habilidades motoras, consciência corporal, melhoram a auto-estima, estimulam a socialização e aumentam a inclusão dessas crianças em eventos escolares e sociais.

Ressalto o belo trabalho de duas instituições brasileiras sem fins lucrativos: a Associação de Amigos do Autista (AMA) e a Autismo e Realidade.

Ambas as associações são formadas por pais, profissionais e pesquisadores que buscam a divulgação do conhecimento científico sobre o autismo, com campanhas e atividades direcionadas a motivar e orientar as famílias na sua busca por diagnóstico, tratamento, educação e inclusão social.  A luta para eliminar preconceitos e despertar o interesse e boa vontade da sociedade brasileira também faz parte dos objetivos dessas instituições e merece todo o respeito e apoio.

 

 

Dr. Gustavo Teixeira é mestre em Educação pela Framingham State University, nos Estados Unidos, é palestrante internacional em inclusão e educação especial.

Autor dos livros: “Manual do autismo”; “Manual dos transtornos escolares”; “O reizinho da casa” e “O reizinho autista”.