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SETEMBRO BRANCO DA INCLUSÃO: DIÁLOGOS E PERSONAGENS DA VIDA REAL

SETEMBRO BRANCO DA INCLUSÃO: DIÁLOGOS E PERSONAGENS DA VIDA REAL
Estávamos na cantina conversando após uma aula sobre histocompatibilidade e fagocitose…
Eu: “João, estava conversando com a sua mãe (Adriana) sobre escrevermos um texto para o Setembro branco da inclusão. Pensamos em falar sobre a inclusão no ensino superior.”
Ele: “Mas quem pode falar sobre isso sou eu!”
Concordei e sugeri:
Eu: “Vou te entrevistar, o que você acha?”
Ele: “Olha que sou sempre sincero… (sei disso e adoro!).
Eu: “Então, vamos lá”:
– O que você acha importante falarmos primeiro?
João: “Sobre os professores. Acho que faltam informações aos professores que vão trabalhar com o aluno autista. Muitos querem ajudar, buscam informações por conta própria, mas ainda não é suficiente. O autista tem ‘graus’ e o professor não pode padronizar. Outros autistas virão e serão diferentes”
-E o que você acha das provas?
João: “As provas são um detalhe que incomoda: todas deveriam ser adaptadas. Preferia que não tivessem questões discursivas, que as respostas fossem em tópicos, mais objetivas e sem ‘pegadinhas’. O autista usa a lógica para responder e leva para um sentido literal.”
-Vamos falar sobre os colegas da faculdade?
João: “Os alunos poderiam interagirem mais. São poucos que vem conversar, mas isso não me perturba, pois já acontecia na escola. E ainda falando sobre a escola eu queria dizer que as escolas especiais isolam. Não tenho nada contra elas, mas elas excluem mais do que incluem. Os alunos em escolas regulares se desenvolvem mais.”
-Qual o seu método para estudar e dar conta de tantos conteúdos?
João: “Eu leio, decoro, mas entendo o que eu decoro. Consigo explicar. Depois de ler faço pesquisa. Por exemplo: vou ver o que tem o hipotálamo a ver com o que o professor falou”.
-Vamos falar sobre inclusão?
João: “Um dos meus sonhos é ver a inclusão acontecer de fato, sentir que tem amor de verdade entre alunos e alunos, e entre professores e alunos. Será que tem respeito mesmo entre todos?”
A maioria dos professores gostam de escrever, mas terminar este texto está difícil.
Fico refletindo que cada resposta do João daria uma tese de mestrado em várias áreas do conhecimento, mas como ele mesmo diz: “Pensa, repensa e segue o seu coração”.
E lembrei-me do dia em que você me explicou (fundamentando teoricamente, inclusive) que “sem amor eu nada seria”.
João, você que é o meu professor!
Mara Flatau
Intérprete educacional da UNIASSELVI e do aluno João Vitor Ferreira

Formação continuada: inclusão é informação!

Formação continuada: inclusão é informação!

 

A escola não é uma instituição pronta, acabada e inflexível, mas uma estrutura que acompanha o ritmo individual de aprendizagem de cada aluno, fator que deveria ser levado em consideração quando abordada na perspectiva da educação escolar inclusiva. O autismo tem um espectro muito amplo, os sintomas variam de pessoa para pessoa, com diferentes graus de comprometimento. Ou seja, as pessoas são diferentes e agem de maneiras diferentes, sejam elas autistas ou não, e o que todos eles terão em comum é o comprometimento comportamental na interação social e na comunicação. Posto isso, deve-se respeitar o autista em sua individualidade: um sujeito sociocultural, criador e protagonista de sua própria história, isto é, o autista por aquilo que ele é, e não por aquilo que será.

Ademais, ele, além do direito à matrícula e ao professor de apoio, também tem o direito de possuir materiais adaptados e avaliações diferenciadas com a utilização de uma linguagem mais objetiva e com imagens, para ser avaliado conforme seus avanços, seu desenvolvimento pessoal e não por critérios comparativos.

Dessa forma, as informações e os conhecimentos adquiridos pelo professor na formação continuada ajuda diretamente sua prática docente, porque muitas vezes antecipam, de alguma forma, a exposição de situações que poderá encontrar ou já encontrou na escola. Ou seja, a articulação da teoria-prática visto que, na formação continuada, é a construção da prática-reflexiva, pois se leva em consideração a realidade que o docente está inserido, assumindo a reflexão na ação que permite a associação teoria-prática.

Tomada em seu conjunto, a reflexão proposta da importância da formação continuada contribui para o progresso da formação e do trabalho docente devido ao suporte que oferece ao desenvolvimento profissional, além de promover um crescimento pessoal e institucional, colaborando com possíveis mudanças na prática.

Vale assinalar, ainda, que o principal papel da escola é a socialização. Nela, a criança/adolescente passa por diversas situações nas quais pode antecipar como será sua vivência extramuros. Afinal, quanto mais diversidade encontrar na escola: seja convivendo com adultos diferentes de seu meio familiar; ou relacionando-se com pares distintos, maior será sua preparação para a vida fora da escola. Por fim, também é válido considerar que os educadores são os agentes mobilizadores e, juntamente com seus alunos, são agentes de transformação social; é na escola que realmente pode-se fazer a diferença. Escola é lugar para todos, e não para alguns!

Autismo e o ensino superior: quebrando paradigmas, vencendo barreiras. 

Sonho com o momento onde seremos todos tratados de forma especial, não por termos algum comportamento que não segue padrões predeterminados como certos ou adequados (?), mas porque somos todos, verdadeiramente e igualmente especiais e únicos.
Tenho o hábito de interpretar e adequar as palavras, por exemplo: desafio, troco por oportunidade; dificuldade, troco por aprendizado e crescimento.
Digo isso porque, ao nos prepararmos para trabalhar com alunos autistas, durante a nossa formação, adquirimos conhecimentos teóricos, filosóficos e legais que nos dão direcionamentos e metodologias fundamentais, mas é no cotidiano, na prática do trabalho docente que “aprendemos” verdadeiramente. Aprendemos que a compreensão e o respeito, por exemplo, do termo inclusão, ainda precisa avançar bastante, ser compreendida e assegurada com amplitude e quando mencionamos aqui em especial o aluno autista, entendemos que a metodologia é a das possibilidades e da descoberta. Sim, porque as possibilidades tanto de ensino como de aprendizado do aluno autista são imensas, exatamente como as de qualquer outro aluno, pois o fato de ver e entender o mundo sob outra ótica amplia as possibilidades do trabalho docente. É, na verdade, bastante simples: basta pensar na maneira como você aprende que, provavelmente não é a mesma forma que o seu irmão, o seu amigo aprende e isto porque somos todos diferentes. Difícil entender? Nem tanto, para isso precisa ter sim conhecimento teórico para descobrir caminhos, estabelecer metas, além de uma dose de persistência, boa vontade, mas acima de tudo, muito amor para superar dificuldades que todos nós temos, independente de nossas condições.
O mundo autista é maravilhoso, descomplicado, direto, é único e justamente por isso, por esse “descomplicamento”, que a atuação do professor de apoio torna-se importante, por ser um mediador, uma ponte que liga uma mente brilhante aos processos da educação colaborativa no âmbito da instituição e fundamental para a promoção do sucesso educacional do aluno.
Na nossa Instituição, o professor de apoio, recebe a nomenclatura de “Professor Intérprete” e aí a minha leitura para “intérprete” vai muito, mas muito além: intérprete de olhares, de sentimentos, de emoções, de aprendizados e aprendizagens, de trocas. Impossível nesta caminhada, deixar de mencionar Carl Jung quando ele diz que “Ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”
@João Vitor Ferreira: rumo à formatura e ao sucesso! Amo !
Mara Flatau
Pedagoga e intérprete educacional da Uniasselvi do acadêmico autista João Vitor Silva Ferreira.