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O que se inclui quando se inclui ( Dra Daniela Bridon- professora, psicanalista

O que se inclui quando se inclui ( Dra Daniela Bridon- professora, psicanalista

O que se inclui quando se inclui?

A inclusão de crianças com deficiências ou transtornos no ensino comum recebeu amparo legal principalmente a partir da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, Lei 13.146, de 6 de julho de 2015. Muitos anos antes, a possibilidade de incluir crianças nas escolas regulares já vinha se delineando a partir de outras legislações e decretos federais, estaduais e municipais, alguns específicos, outros mais abrangentes, como a própria Constituição Federal de 1988.

Apesar de todo amparo legal e de todas as iniciativas compulsórias, decorrentes das leis, o que podemos observar em muitas práticas e discursos é um insistente questionamento acerca da efetividade da inclusão de crianças com deficiências ou transtornos no ensino comum. Questões surgem: O quanto se pode ensinar a quem apresenta significativas dificuldades cognitivas e no campo da linguagem? Quais os efeitos dos investimentos de toda ordem ao se tentar incluir uma criança na escola? E uma pergunta velada, mas que também pode ser escutada, apesar de seu tom de perversidade: O quanto que se perde com uma criança inclusa, quando se poderia investir em crianças que de fato aprendem?

                  Propomos uma inversão dessas questões, voltando-as para crianças que não estão no escopo das deficiências ou dos transtornos: O quanto se pode ensinar a quem não apresenta significativas dificuldades cognitivas? Quais os efeitos dos investimentos de toda ordem simplesmente pelo ato de matricular uma criança na escola? O que se ganha nessa tentativa? Quando invertemos as questões, parece que ficamos também à beira de respostas. Talvez por que não haja certezas sobre quais os efeitos da entrada de uma criança na escola. E, por sua vez, também não haja garantias deles.

                  Assim, talvez o que precisamos voltar a questionar e construir discursos e práticas é sobre o que é a educação e o que ela pode transmitir para as crianças, sejam elas como forem. A entrada de uma criança na escola é, por si, um ato de inclusão, porque, como afirma Maria Cristina Kupfer (2000), ela passa a ser considerada um “escolar” acima de qualquer outra representação. Outro significante passa a marcar seu caminho pelo mundo e, só por isso, sua passagem pelo social pode adquirir outro contorno. A partir disso, as demandas que recaem sobre ela – especialmente aquelas cujo único traço identificatório é sua deficiência ou seu transtorno – permitem que se desloque de um único lugar, muitas vezes excluído do discurso social – para um outro, que lhe coloca possibilidades de estar com o outro, falar com o outro, ser escutada pelo outro e ser reconhecida por suas singulares produções como talvez nunca tenha sido – certamente, não do mesmo modo.

O que se inclui quando se inclui, portanto, é uma possibilidade de humanização. Essa é a principal tarefa da educação, muito maior e mais efetiva do que qualquer iniciativa pedagógica de ensinar teorema de Pitágoras ou concordância verbal. O que se inclui quando se inclui é a possibilidade de inventar, junto com outros, diferentes, modos singulares de existir e ser reconhecido no social: cada um do seu jeito. Tarefa que dá trabalho para todos e para cada um, já que cada sujeito a atravessa de modo singular. Ah, e qual o efeito? A vida!

 

Daniela Bridon
Psicanalista
Doutora em Psicologia
autismos