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O adulto autista, por uma autista

O adulto autista, por uma autista

Olá, eu sou a Juliana, tenho 32 anos e sou Asperger.
Sempre quando se fala ou se procura informações sobre autismo, quase todos os dados são sobre crianças.
É como se autistas não crescessem!
Para nós que recebemos o diagnóstico tardiamente há uma carência de informações.
Mas o que posso dizer sobre mim?
Sempre fui uma criança quieta, que não sorria como as outras crianças e que tinha muita dificuldade em fazer amizades.
Na escola era a aluna exemplar da classe, que só tirava boas notas. Passei desapercebida, todos esses anos.
Para quem estava de fora, eu era a filha exemplar, sem reclamações na escola, inteligente e educada.
A versão da história sob meu ponto de vista é um pouco diferente.
Eu era a criança sozinha, que tentava se misturar com outros coleguinhas após “estudá-los” por um tempo para saber como ser do grupo.
Era a menina que sofria bullying todos os dias, que não sabia se defender e nunca se defendeu, que mesmo quando estava com outras pessoas não se sentia parte, se sentia diferente.
A Juliana cresceu e foi trabalhar.
Tinha que falar no telefone e eu odiava, mas minha rigidez de pensamento dizia que eu tinha que trabalhar e tinha que aprender a lidar com essas dificuldades.
Fiz faculdade e conclui emocionante desgastada.
Trabalhei por anos em outros lugares, com a mesmas dificuldades, porém trazendo todas essas tempestades apenas dentro de mim.
Aprendi a me camuflar muito cedo, mas os estragos que isso traz cobrou o seu preço.
Após muitos anos, após mais um meltdown (hoje eu sei) li uma matéria sobre a síndrome de Asperger em mulheres e foi como se lesse o roteiro da minha vida. Percebi que toda essa minha dificuldade em vários aspectos, poderia ser por isso.
Busquei ajuda profissional, falei das minhas desconfianças e o diagnóstico veio.
Foi um alívio enorme!
Pude entender toda a minha vida, as  minhas dificuldades e também pude me perdoar em muitas coisas.
Estou em meu processo de autoconhecimento e aprendendo a respeitar os meus limites!
Mas nessa caminhada percebi que, assim como eu, centenas de mulheres passam a vida sem saber ou com o diagnóstico tardio.
Há muitas diferenças entre homens e mulheres Asperger e isso deveria ser melhor estudado e mais divulgado.
Precisamos falar sobre o autismo em mulheres, em adultos e cuidar dessa gigantesca parcela da população que cresceu sem um diagnóstico e que sem dúvida, nessa caminhada ainda “ganhou” outras comorbidades.
Juliana Monique Santos
Bióloga, designer e ilustradora
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