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Implicações do Diagnóstico Tardio de TEA – depoimento Selma Sueli Silva

Implicações do Diagnóstico Tardio de TEA – depoimento Selma Sueli Silva

Implicações do Diagnóstico Tardio de TEA

Quando eu percebi a flacidez em minha pele ao redor dos olhos, quando eu contei cada ruga que aparecia em meu rosto, quando observei que até meus joelhos estavam mudando, eu percebi a beleza de me tornar mais velha.

Eu entendi que aquela mulher madura que surgia mais que aquele branco na sobrancelha ou a preocupação com a perda do contorno perfeito do rosto, aquela mulher que surgia tinha uma sabedoria, uma experiência que só a vida dá.

Só viver dia após dia permite esse aprendizado. Foi, então, que eu me orgulhei daquela mulher. Um orgulho nascido das lembranças das dificuldades de relacionamento, do esforço hercúleo para entender a mensagem dos outros.

Tentar sistematizar e padronizar para entender como funciona no convívio social e a partir daí, bolar estratégias que me permitissem passar despercebida pelas pessoas, mesmo que o empenho para tudo isso me levasse sempre à exaustão social no fim do dia.

Sim, era complicado. A cada dificuldade que retornava à minha mente, a cada lembrança de fins de semana com muita socialização e consequente estafa na segunda-feira, a cada lembrança, eu via surgir, na mulher madura, a menina resoluta, a menina determinada, a menina que venceu, mesmo sem conhecer o próprio diagnóstico.

É certo que algumas limitações ainda me assombram: fazer compras, organizar o dia a dia da casa, pensar no cardápio da semana, escolher verduras e frutas no sacolão, comprar passagens para viagens, preencher formulários… andar de ônibus.

Nossa, como eu me cobrei por tudo isso. Coisas bem mais complicadas eu conseguia. Fazia sentido as pessoas acreditarem que era corpo mole.

Mas aí, há três anos, veio a explicação. Eu sou autista e tenho disfunção executiva.

O que isso quer dizer na prática?

As funções executivas são as habilidades cognitivas necessárias para controlar e regular nossos pensamentos, emoções e ações. Alguns estudiosos fazem uma distinção entre o componente “frio” das funções executivas, que envolve estritamente as habilidades cognitivas (por exemplo, a capacidade de fazer cálculos apenas com a mente), e o componente “quente”, que reflete a capacidade de regular as emoções (por exemplo, a capacidade de controlar a raiva).

Quantos acessos de raiva eu tive. Até adulta ainda mordo o dedo para tentar me regular.

Existem três categorias de funções executivas:

-O autocontrole, ou seja, a capacidade de resistir contra fazer algo tentador para privilegiar a ação desejada. Ele ajuda as crianças a permanecer atentas, a agir de forma menos impulsiva e a ficar concentrada em seu trabalho.

-A memória de trabalho, ou seja, a capacidade de conservar as informações na mente, o que permite utilizá-las para fazer o vínculo entre as ideias, calcular mentalmente e estabelecer prioridades.

-A flexibilidade cognitiva, ou seja, a capacidade de pensar de forma criativa e de se adaptar às demandas inconstantes. Ela permite utilizar a imaginação e a criatividade para resolver problemas.

As habilidades associadas às funções executivas são extremamente importantes para o desenvolvimento, incluindo o desempenho escolar, os comportamentos relativos à saúde e o ajustamento social. Até hoje, só eu sei como lutei contra as consequências aterradoras dessas minhas disfunções executivas.

Estava explicado minha dificuldade em terminar tarefas iniciadas, por exemplo, terminar de estudar ao invés de ir correndo para o lazer. Tive de desenvolver pela observação constante a capacidade de analisar meu ambiente para decidir qual o plano de ação apropriado (por exemplo, estudar hoje é essencial para a obtenção de uma boa nota na prova do dia seguinte).

Agradeço à minha família por minhas experiências reforçadoras, vindas de uma relação afetiva e assertiva.

Foram as dificuldades que me levaram a alguns progressos nas habilidades da função executiva.

As habilidades das funções executivas permitem que as crianças lidem melhor com seu ambiente em constante mudança, o que explica várias dificuldades da criança autista tais como competência nos domínios social, emocional e escolar.

A leitura e escrever diário na infância e adolescência foram os principais recursos que utilizei para minha autorregulação, além da música, dança e até mesmo contar histórias. Por isso, hoje eu me orgulho muito dessa linda menina que eu vejo e sinto por detrás do meu sorriso e que confirma a mulher vencedora na qual me tornei apesar de todas as limitações do autismo.

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