Quem nos conhece sabe que temos uma relação saudável com o autismo.
Essa característica “neurobiológica” que o Pedro tem, sempre teve desde que nasceu.
Tudo na vida tem seu lado bom e ruim. Mas foi uma decisão, uma escolha nossa ter essa relação. E tudo na vida acontece por um motivo.
Voltando um pouco…
Eu e o Marcos nos conhecemos, nos reencontramos, namoramos, fomos morar juntos. Tudo se encaminhando e veio a vontade de ter um filho. Já tinha me formado, estava trabalhando, tinha um companheiro, tinha uma casa, gatos, cachorros e  naturalmente nos preparamos para o próximo passo: a maternidade! Engravidei e sofri um aborto (aí sim foi difícil, muito. Nenhum dos dois soube lidar com a situação).
Precisávamos sentir essa perda e nos fortalecermos para tentarmos mais uma vez.
Engravidei do Pedro e desde o início muito preocupada e ansiosa, me cuidava muito e meu marido mais ainda (o Marcos engordou comigo!).
Dia 10/07/2012 recebemos nosso pacotinho de Deus! Estávamos completos! Tinha meu filho, estava de licença maternidade, o Marcos trabalhando.
Lembro até hoje do primeiro contato com a palavra Autismo, o Pedro tinha uns 11 meses e o Marcos chegou em casa chorando, tinha pesquisado na internet e tudo batia com as características que o Pedro apresentava. Peguei o Pedro no colo e falei para o Marcos:
– Marcos olha pra ele, autista ou não, é o Pedro! Essa é sua essência. Não é o fim do mundo, não é uma sentença de morte. Se acalme, ele precisa de nós e não é no desespero que vamos fazer alguma coisa. Eu fico com ele o dia todo. Nós temos uma relação, ele é carinhoso, esperto e feliz! Se for diferente, nós precisamos de todas as ferramentas para que ele continue se desenvolvendo feliz!
Ali eu já sabia e sentia o potencial e capacidade que o Pedro possuía. Nunca durante a gravidez ou depois que ele nasceu, senti ou imaginei o que ele poderia ser, ou o que eu queria que ele fosse, suas conquistas. Para mim tudo tem seu tempo, e naquele momento estava realizada por ter um filho, uma extensão de mim, da nossa relação Gi e Marcos!
Depois que o Marcos se acalmou, fui para o computador, e realmente as características eram claras. Abençoado Marcos que percebeu o que no momento eu não percebia e pudemos começar a ajudar o Pedro o quanto antes.
Fomos à pediatra, que nos encaminhou para o neuropediatra, exames e avaliações.
E o Pedro tinha características de autismo, mas que não poderia ser diagnosticado ainda, deveríamos começar as intervenções e continuar observando.
E aí que eu e o Marcos começamos nossa transformação: sabíamos que tudo que disséssemos, a forma de agir e interagir entre nós e com os demais, a “energia” que passamos para o Pedro, era fundamental que tínhamos que ser melhores. Queríamos o melhor para o Pedro e que nosso pequeno já começou a nos ensinar. Sempre falei que ele nos ensina mais do que nós a ele. Com ele aprendemos a sentir o amor verdadeiro, incondicional, diferente do amor de namorados, casais, aquele amor que espera algo em troca.
Então o Marcos foi demitido. E novamente tudo acontece por um motivo. O Marcos precisava desse tempo com o Pedro e foram 6 meses de trabalho, estimulação e interação para ele sentir o que eu sentia e tentei passar para ele naquele dia que chegou chorando em casa. (O Marcos sempre foi um super pai, mas trabalhava e viajava demais e tinha pouco tempo em casa, então era normal não saber de tudo).
E foi maravilhoso ver o crescimento deles e de nós como família. Quando o Marcos voltou a trabalhar, foi para diferentes cidades por 11 meses até nos reunirmos novamente aqui em Blumenau.
Foram momentos difíceis, por estarmos longe, mas novamente nada acontece sem um motivo. Eu e o Pedro em Lages, nas nossas terapias, e eu e o Marcos fortalecendo nossa relação à distância. E de novo estamos nessa pois o Marcos foi trabalhar em outro estado.  Agora eu e o Pedro “sozinhos” em Blumenau, sozinhos não né. Agradeço por ter amigas muito especiais que nos ajudam sempre!
Acredito que nem as próprias pessoas das nossas famílias saibam todo o “trabalho” que exercemos com o Pedro ou melhor, todo o trabalho que o ele já realizou para estar assim tão bem. Muitos, agora falando de todas as pessoas que acabam de nos conhecer ou convivem com a gente, já nos falaram: mas ele não parece autista. E  sinceramente não sei se vejo como um elogio ou fico preocupada em ver como o mundo precisa de mais informações. Não por maldade, mas muitas crianças não são diagnosticadas, porque ainda se vê o autismo caracterizado por crianças que não querem contato, se isolam e se agridem. E são N autismos. Falo da nossa experiência, do nosso autista. Sempre que tenho oportunidade falo sobre o autismo (e falo muito rsrsrs) no ônibus indo para as terapias, na padaria, mercado, farmácia, lojas.
E falando em terapias, com 1 ano e pouco ele pegou o primeiro alimento com as mãos (e adivinha, era batata-frita). Foram quase 2 anos para ele conseguir pegar um copo com água e tomar sozinho, para conseguir se alimentar com uma colher sem auxílio. Com 3 anos e pouco aprendeu a apontar para pedir algo e a partir daí sua comunicação só está melhorando. Quando entrou na escola com 3 anos e meio aprendeu a interagir com outras crianças, do jeitinho dele. No aniversário de 4 anos foi a primeira vez que bateu palmas durante os parabéns. Com 4 anos e alguns meses que conseguiu segurar o xixi e começamos o desfralde. Também com 4 anos e pouco conseguiu pular com os dois pés juntos. E faz em torno de dois anos que ele nos abraça, de novo do jeitinho dele, sempre foi muito carinhoso, e aí nos ensinou diferentes formas de demonstrar afeto. Com quase 5 anos que conseguiu tomar de canudinho e também nos surpreendeu em buscar contato visual espontaneamente.  Com 6 anos disse a primeira palavra.
Nessas últimas férias teve uma evolução gigantesca na parte motora (focamos muito na atividade física) com 6 anos e meio reconheceu a vontade de ir ao banheiro sozinho (desfralde concluído). E a mais recente façanha foi a adaptação na escola nova, de uma forma tão natural e harmoniosa que só nos enche de orgulho.
Todas pequenas conquistas (MUITOOOO COMEMORADAS!) mas que exigiram muito do nosso pequeno.
Falo em pequenas conquistas porque para as demais pessoas fora do espectro são atividades corriqueiras, fáceis, do dia-a-dia, que passam desapercebidas, fazemos sem esforço e que muitas vezes não damos valor.
Agradeço a todos os profissionais, que já trabalharam com o Pedro e os que estão com a gente hoje. Muito obrigada pela dedicação e carinho. Todos esses avanços são fruto do empenho, AMOR E EMPATIA de vocês.
Também não tem como não se apaixonar pelo Pedro! Ele quer, ele sabe que pode, que vai conseguir. E acredito realmente que foi porque acreditamos nele em primeiro lugar.
Agradeço as nossas famílias e amigos pelo amor e pelo carinho sem medidas! Aqui sem palavras, nossos sentimentos se sentem!
Agradeço ao Marcos, o autismo vive em mim. Tive que estudar muito e ainda estudo, e aqui meu marido foi super parceiro em me ajudar, me proporcionar momentos cuidando do Pedro para eu ter esse tempo precioso. Nossa relação só floresce, nos momentos bons e ruins. Aprendemos muito e reconhecemos nosso constante aprendizado.
Agradeço a Deus por vivenciamos e aceitamos que tudo na vida acontece por um motivo e esse amor divino habita em nós!
Comemorar é pouco, agradecer também faz parte. Obrigada primeiramente em me fazer melhor. Gratidão por ter você como filho abençoado!
E para encerrar…
Ter uma criança com autismo é difícil.
Você irá sobreviver se deixar as atitudes negativas e os comentários maldosos dos outros longe de você.
Sabendo que sua jornada como mãe/pai de autista é importante. Muito importante!
Você é a voz de seu filho, seu terapeuta, seu advogado, acima de tudo seu pai, seu coração e sua alma.
Sua jornada pode ser dura, mas cada pequena etapa é uma enorme conquista e você irá experienciar recompensas de “doer” o coração de felicidade! Recompensas que irá manter dentro de si para sempre!
Você é mãe/pai de autista e você é MARAVILHOSO!
Seja gentil, seja amável consigo mesmo!