Pedro Ferreira, formado psicólogo pela FURB – Universidade Regional de Blumenau, psicólogo clínico e psicanalista em formação, CRP-12/17078. 

Feito irmão

O homem que escreve sobre a mulher é sempre um filho. A mãe que o trouxe ao tempo é sua terra natal. Do vazio da vida ao vácuo da existência, ocupamos o colo da maternidade ou anseio por ela. Através do feminino o masculino é gestado na forma de um futuro que poderá vir a ser ignorado.

É a voz, o toque, o embalo de quem marca o ritmo do necessário que revoga a autoridade do desejo e demarca seu ritmo de saciedade. O início da vida é pura fragilidade e dependência. É cruzamento de tempos distintos (eu, ele, você…) que conforma ou disforma temporalidades:

 

O tempo é instituído, para cada sujeito, no intervalo entre a tensão de necessidade (pulsional) e a satisfação; mas como, para o filhote humano, a satisfação de necessidade depende inteiramente de que um Outro queira se ocupar dele, tal intervalo logo se apresenta a ele como o tempo que separa a demanda do Outro da possibilidade de o sujeito responder a ele. Dito de outra maneira: o sujeito do desejo, em psicanálise, é um intervalo sempre em aberto, que pula entre o tempo próprio da pulsão e o tempo urgente da demanda do Outro. Nisso se resume a alienação que distingue o humano de outras formas de vida animal: não somos senhores de nossa relação com o tempo (KEHL, 2015, P.112-113).

 

            Da mãe que brota ao filho não sai somente leite, mas um sujeito a ser formado. Formas de afeto e tratamento que serão afirmadas e/ou destruídas para que novos espaços sejam organizados. Do pai que dá nomes partem os ensinamentos do que dizer, e dizemos o que queremos falar a partir do que podemos dizer. De ambos nascem os irmãos e, com eles, a prova de que cada um é único.

            De meu irmão mais velho eu recebia murros e cultivava admiração. Ter chego anos antes o conferiu a autoridade de caminhar antes de mim. Alguns passos já haviam sido dados. O primeiro dia na escola, o controle de sua bexiga, a paixão de algumas garotas e a maior intimidade com nossos pais eram alguns de seus atributos. Eu o via a distância.

            Ele era um menino bonito que arrancava elogios de todos, mesmo sendo meu adorado vilão. Seu império de terror foi longo. Dedos babados em meus ouvidos, socos e caldos em nossa piscina, meu irmão mais velho tinha um trono a proteger. E ele o protegia, mesmo de alguém incapaz de ocupa-lo.

            Apesar dos hematomas e rancores nos tornamos companheiros. Filhos dos mesmos pais, ele foi meu patrão e eu seu empregado. Servi como uma extensão dolorida de seu corpo em assuntos familiares. Talvez eu tenha sentido mais da sua puberdade do que ele mesmo, uma vez que era eu quem sentia as dores deu suas insatisfações.

            Ele foi terrível, mas um grande irmão. Cuidou de mim, não dos ferimentos que me infligiu, mas me acompanhou até aqui ao ser indiferente a eles. Dele recebi inspirações a superações. Se hoje conheço a falta de ar que o peso de uma mão no estomago pode causar, é ele o responsável. Eu aguento.

            Assim, um irmão menor seria uma grande oportunidade. Um novo reinado para um novo rei, eu seria o herdeiro. Terríveis seriam os dias daqueles que se opusessem a mim. Enquanto o mais velho partia rumo a prazeres do mundo-do-lado-de-fora-de-casa, um novo senhor se esgueirava em sua ausência. 

            O pequeno seria o que fui para o maior. Um ciclo natural da cadeia evolutiva visto a olho nu. Meu irmão seria mais do que um irmão, seria meus braços, pernas, curiosidade e raiva. É dessa maneira que imagino ter imaginado. Entretanto, foi exatamente isso aquilo que não aconteceu.

Foi aos três anos de idade que recebi outro irmão e entre três irmãos me vi crescer enquanto todos cresciam. Não me recordo do dia, nem mesmo me lembro de diversos anos subsequentes ao seu nascimento. Mais especificamente, não há memória dele em mim enquanto criança. Os registros são escassos e o que há de significante neles é justamente a falta de significância

            Nasce uma criança prematura. Um menino com muitas insuficiências e diagnósticos. Eu não estava lá para ver, apenas estive próximo para ouvir dizer. Não me recordo da sua fragilidade. Lembro somente daquilo que quero dizer, por isso digo: porque quero e porque lembro.

            Talvez tal tempo não caiba em mim, sendo assim, me escapa. Desvinculado do período o que resta é distância. Assim, sigo os rastros. As marcas deixadas não restam em ninguém, somente em mim. Pelo menos gostaria que assim fosse, não é. Aquele que marca é sempre o outro, o outro que marca sou sempre eu.

            Na vulnerabilidade de meu irmão me vi vulnerável. O orgulho indispensável pairava sobre o mais velho, os cuidados inevitáveis insistiam no mais novo, logo, fui me retirando. Na falta de espaço não há locomoção. Havia a necessidade de desvinculação. Era apertado estar entre meus irmãos.

            Das vezes que lembro de meu caçula, todas elas, são imagens impressionantes de tombos, trombadas, choros e machucados. Recordo de nossa babá, em desespero, correndo para a rua com ele em seus braços quando abri sua sobrancelha. É frustrante não me lembrar da segunda vez que fiz o mesmo. As memórias me trazem a impressão de que nunca estive lá, apesar de suas cicatrizes serem testemunhas.

            Desse modo foi preciso intransigência. Muito cedo meus banhos foram somente meus, meu cardápio seria minha decisão e minha violência seria despejada onde eu quisesse. Caso contrário, banhos inundariam o banheiro. Cadeiras e bonecos seriam roídos e mastigados. E alguém se machucaria, fosse eu ou outros.

            Os gritos, as palavras, minhas fugas, todas as horas trancafiado em um banheiro e cada briga, foram atos necessários. Era preciso que fosse para poder ser. Afogado num mar de gente nós morremos respirando o ar de outros. Não quis morrer, quis viver.

            Dessa vida, entre irmãos, o sufoco da falta de espaço. Do mais velho a intenção de ser servido. Do mais novo a frustração de quem sabe que nunca seria. Eis o que recebi enquanto filho: uma promessa e sua negação. Meu destino era ser irmão de meus irmãos.

            Entretanto, nada distante do incomum em minhas reações. É necessário dizer que não ser quem se quer ser não significa querer ser outro alguém. Assim, do comum da condição de quem recebe um novo irmão, vislumbrei uma possibilidade de me fazer.

            Meu irmão caçula acabou por se tornar um espelho onde enxergo quem não sou. O reflexo do zelo familiar e a distância da atenção que eu não tinha. Porém, não há culpa ou rancor aqui, somente a compreensão de que o necessário é uma necessidade. Sua presença me afastou de outras presenças porque longe delas era o único lugar onde eu me encontraria. Ele, em toda sua diferença, é o autista que não sou. Meu “contra-narciso”.

            Seu nascimento destoou da recepção ao se mostrar uma transformação na ordem das coisas. Foi o irmão que eu não aguardava, o filho que meus pais não conheciam, a pessoa que, a partir de suas estranhezas, traria outro mundo ao ensinar que todos nós somos maiores que nossos nomes.

Contato Pedro: pedropsiferreira@gmail.com