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Depoimento de Patrícia de Almeida, psicóloga, mãe de Pietro, 9 anos e de Lorena, 5 anos, autista. 

Depoimento de Patrícia de Almeida, psicóloga, mãe de Pietro, 9 anos e de Lorena, 5 anos, autista. 

“Ter uma linda menina autista me transformou em uma Supermãe”

 

Leia o relato de uma supermãe cuja filha recebeu, aos três anos e oito meses o diagnóstico de autismo e de alergia alimentar múltipla que transformou a sua dor em forças para continuar lutando.

Patrícia Silva de Almeida João é mãe de Pietro, 9 anos e da pequena Lorena de 5 anos de idade. É formada em Psicologia pela (UNISUL), pós-graduada em Psicopedagogia e atualmente está cursando pós-graduação em Neuropsicopedagogia (CENSUPEG) Rio de Janeiro.

Lorena nasceu no dia 29 de março de 2013, às 17h18min e com 41 cm. Quando o Dr. Otto Feucheoutt tirou Lorena de dentro de mim, foi pura emoção, não contive as lágrimas. Já sabia que ela, apesar de ter nascido muito roxinha e custar a chorar, seria uma menina muito forte e diferente. Esta impressão eu sempre tive desde a sua vida intrauterina.

No primeiro mês de vida, minha filha se desenvolveu como as demais crianças: dormia, acordava para mamar, tinha uma rotina diária e tudo estava indo bem, até que, no 48º dia, começaram as chamadas cólicas e choros intensos e intermináveis. Foi, então, que Lorena apresentou refluxo esofágico.  Fazia 168 episódios em 24 horas com engasgos e muitas dores abdominais e diarreia. Sua primeira internação com Diagnóstico de Refluxo Esofágico Oculto Severo, APLV e Soja.

Depois disso, minha filha nunca mais foi a mesma. Aquela linda menininha tranquila se transformou em um bebê irritado, choroso, inquieto que não dormia mais, nem durante o dia e nem durante a noite. E assim foram muitos dias cansativos e difíceis. Eu estava cada vez mais estressada física e emocionalmente.

Apesar do refluxo, minha filha se desenvolveu perfeitamente, fazia tudo como qualquer outro bebê: o primeiro dentinho aos 5 meses, sentou com 6 meses, engatinhou com 9 meses e andou com 1 ano. Uma boneca quando não apresentava refluxo.

Quando Lorena estava com 2 anos e ainda alérgica a muitos alimentos, ela ficou extremamente dependente de mim. Na época, eu achava que era em função dos meus excessos de cuidados, já que era eu que cuidava dela sozinha. Comecei a observar o seu comportamento: ela não respondia aos outros quando solicitada, apontava para os objetos, repetia palavras, não gostava do colo de ninguém, não interagia com as pessoas, os familiares e as outras crianças. Lorena também tinha muito medo e sentia-se incomodada com alguns sons e luminosidades. Muitas vezes era comparada ao seu irmão Pietro, outras vezes era chamada de manhosa, antipática, bicho do mato ou também de estranha.

Devido a tudo isso, comecei a pesquisar e estudar sobre os apontamentos característicos. Passava muitas madrugadas anotando tudo. Foi quando mencionei ao meu marido que precisava consultar um Neuropediatra. Após algumas consultas com filmagens, anamnese, relato da escola, veio o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista. A partir do momento em que tive essa confirmação, comecei a entender que algo atípico acontecia com minha filha e que, independentemente de qualquer coisa, ela continuaria sendo uma criança meiga, feliz e sorridente, iria amá-la no seu contexto singular.

Sempre tive a percepção de que, quando acontece algo de inesperado em nossa vida, temos duas escolhas: ou nós enfrentamos com todas as nossas forças e tentamos fazer o melhor, ou reclamamos e esperamos tudo se resolver. Escolhi a primeira, precisei me encorajar para ajudá-la, não podia ficar chorando a vida toda. É preciso ir à luta, visto que qualquer desenvolvimento dela significa muito para mim.

Claro que não é fácil, pois a tristeza e a solidão são, por vezes, nossas únicas companheiras, entretanto acredito que nada é por acaso e que poderia ser até pior. Lorena escolheu o lar certo para vir, pois ela é um anjo em nossas vidas. Ela também já se reconhece com TEA e penso ser incrível esse autoconhecimento, pois mostra que ela está conseguindo acompanhar e desenvolver seu relógio interno e assim, futuramente poder defender-se no mundo.

Entender cada reação é respeitar seu jeito de ser, é dar lugar ao aconchego e segurança, é acreditar que cada dia é um novo dia, que apesar de cansativo e exaustivo, é também prazeroso e que, no fim, dá tudo certo. É claro que penso como será o amanhã? Como será sua alfabetização? Será que vai ser respeitada? Quantas inseguranças e medos virão? E, se eu faltar, como vai ser?

São perguntas que serão respondidas todas a seu tempo. O amanhã é o amanhã, mas lutarei por dias melhores para ela. O seu irmão e seu pai fazem parte desse processo e a participação deles é muito importante, porque entendem o autismo como uma condição que está muito além de respostas simples e limitadas. É preciso ler as entrelinhas e saber que não é uma condição aparente, mas que são diferentes dentro da diferença.

Minha convicção é que os resultados dependem muito mais de nós, da família. E, se tem amor, então tem tudo!

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