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Depoimentos

Depoimento de Marcelo Rodrigues

Em 2008, dois anos após o diagnóstico de Peu, eu e Cau (a mamãe dele) fomos a um congresso para pais de autistas e nos surpreendemos com a abordagem positiva e humanista para o autismo que os organizadores nos apresentavam. Até então só tínhamos nos deparado com terapias de poucos resultados e com pouca perspectiva de evolução para Pedro.
Foram 3 dias com muitos conteúdos e trocas de experiências entre os pais. Dentre todos os ensinamentos, teve um que ficou bastante marcado para mim, uma frase que ouvimos logo no primeiro dia do encontro. Ela dizia: “O primeiro passo para a melhora da criança é amá-la e aceitá-la.” Pensei comigo mesmo, “amar é fácil, eu amo muito o meu filho!” (qual pai que não ama?) e aceitação eu pensei, “é pelo visto vou ter que me conformar com a condição do autismo de Peu.” Como eu estava enganado!
Levaram alguns meses para eu entender o verdadeiro significado daquelas duas simples palavras. Diariamente eu ainda penso nelas e procuro colocá-las em prática com Peu.
Amar é muito mais do que dizer “Eu te amo, meu filho!”, principalmente se for nos momentos em que ele estiver arrumadinho, bonitinho e feliz, ou quando faz alguma coisa que mereça nosso carinho e afeto. Demonstramos o verdadeiro amor quando estamos ao seu lado também nos momentos difíceis, quando precisamos ser pacientes e resilientes, quando ele estiver sem conseguir dormir ou quando acordar no meio da madrugada e não dormir mais, quando ele tiver uma crise, quando ele jogar-se ao chão recusando-se a fazer algo ou até quando trocamos nossos momentos de descanso para poder brincar alegremente com ele.
Nosso amor também é demonstrado quando o levamos para as terapias ou para escola, não como uma obrigação, mas como uma forma de contribuir para o seu desenvolvimento.
Já aceitação, significa abraçar o seu jeito de ser, não ver suas diferenças como fraquezas ou deficiências, mas como uma forma peculiar dele experimentar o mundo, incentivar os seus pontos fortes e interesses. Em vez de tentar impor, exigir e pressionar, ser o seu parceiro para que ele confie em você como um guia.
Por isso, com muita certeza posso dizer, eu amo e aceito meu filho!

Implicações do Diagnóstico Tardio de TEA – depoimento Selma Sueli Silva

Implicações do Diagnóstico Tardio de TEA

Quando eu percebi a flacidez em minha pele ao redor dos olhos, quando eu contei cada ruga que aparecia em meu rosto, quando observei que até meus joelhos estavam mudando, eu percebi a beleza de me tornar mais velha.

Eu entendi que aquela mulher madura que surgia mais que aquele branco na sobrancelha ou a preocupação com a perda do contorno perfeito do rosto, aquela mulher que surgia tinha uma sabedoria, uma experiência que só a vida dá.

Só viver dia após dia permite esse aprendizado. Foi, então, que eu me orgulhei daquela mulher. Um orgulho nascido das lembranças das dificuldades de relacionamento, do esforço hercúleo para entender a mensagem dos outros.

Tentar sistematizar e padronizar para entender como funciona no convívio social e a partir daí, bolar estratégias que me permitissem passar despercebida pelas pessoas, mesmo que o empenho para tudo isso me levasse sempre à exaustão social no fim do dia.

Sim, era complicado. A cada dificuldade que retornava à minha mente, a cada lembrança de fins de semana com muita socialização e consequente estafa na segunda-feira, a cada lembrança, eu via surgir, na mulher madura, a menina resoluta, a menina determinada, a menina que venceu, mesmo sem conhecer o próprio diagnóstico.

É certo que algumas limitações ainda me assombram: fazer compras, organizar o dia a dia da casa, pensar no cardápio da semana, escolher verduras e frutas no sacolão, comprar passagens para viagens, preencher formulários… andar de ônibus.

Nossa, como eu me cobrei por tudo isso. Coisas bem mais complicadas eu conseguia. Fazia sentido as pessoas acreditarem que era corpo mole.

Mas aí, há três anos, veio a explicação. Eu sou autista e tenho disfunção executiva.

O que isso quer dizer na prática?

As funções executivas são as habilidades cognitivas necessárias para controlar e regular nossos pensamentos, emoções e ações. Alguns estudiosos fazem uma distinção entre o componente “frio” das funções executivas, que envolve estritamente as habilidades cognitivas (por exemplo, a capacidade de fazer cálculos apenas com a mente), e o componente “quente”, que reflete a capacidade de regular as emoções (por exemplo, a capacidade de controlar a raiva).

Quantos acessos de raiva eu tive. Até adulta ainda mordo o dedo para tentar me regular.

Existem três categorias de funções executivas:

-O autocontrole, ou seja, a capacidade de resistir contra fazer algo tentador para privilegiar a ação desejada. Ele ajuda as crianças a permanecer atentas, a agir de forma menos impulsiva e a ficar concentrada em seu trabalho.

-A memória de trabalho, ou seja, a capacidade de conservar as informações na mente, o que permite utilizá-las para fazer o vínculo entre as ideias, calcular mentalmente e estabelecer prioridades.

-A flexibilidade cognitiva, ou seja, a capacidade de pensar de forma criativa e de se adaptar às demandas inconstantes. Ela permite utilizar a imaginação e a criatividade para resolver problemas.

As habilidades associadas às funções executivas são extremamente importantes para o desenvolvimento, incluindo o desempenho escolar, os comportamentos relativos à saúde e o ajustamento social. Até hoje, só eu sei como lutei contra as consequências aterradoras dessas minhas disfunções executivas.

Estava explicado minha dificuldade em terminar tarefas iniciadas, por exemplo, terminar de estudar ao invés de ir correndo para o lazer. Tive de desenvolver pela observação constante a capacidade de analisar meu ambiente para decidir qual o plano de ação apropriado (por exemplo, estudar hoje é essencial para a obtenção de uma boa nota na prova do dia seguinte).

Agradeço à minha família por minhas experiências reforçadoras, vindas de uma relação afetiva e assertiva.

Foram as dificuldades que me levaram a alguns progressos nas habilidades da função executiva.

As habilidades das funções executivas permitem que as crianças lidem melhor com seu ambiente em constante mudança, o que explica várias dificuldades da criança autista tais como competência nos domínios social, emocional e escolar.

A leitura e escrever diário na infância e adolescência foram os principais recursos que utilizei para minha autorregulação, além da música, dança e até mesmo contar histórias. Por isso, hoje eu me orgulho muito dessa linda menina que eu vejo e sinto por detrás do meu sorriso e que confirma a mulher vencedora na qual me tornei apesar de todas as limitações do autismo.

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Depoimento 13 – Victor Mendonça, autista, jornalista, escritor ( Autismo e Diagnóstico: Esperança?

Autismo e Diagnóstico: Esperança?
Eis que, às voltas com a documentação para o Mestrado, encontro uma avaliação neuropsicológica de quando eu tinha 11 anos e estava em processo de diagnóstico de autismo.
Não consegui conter as lágrimas. A impressão que me dá lendo o que estava escrito ali era de que eu era a pior pessoa do mundo. Os prognósticos eram desesperadores e jamais apontariam que eu seria ao menos parte do que sou hoje, no que se refere ao convívio social.
Passaram-se 11 anos desde então e, hoje, tenho profundo orgulho da pessoa que me tornei e sei que quem convive comigo também.
Um filme daquela época me passa pela cabeça, e a sensação não é nada agradável.
Apesar de estar muito mexido e ter, num primeiro momento, desejado guardar esse sentimento comigo, resolvi dividir com as pessoas que me seguem – principalmente pais e mães de autistas que vivem situações semelhantes com as que eu passei.
Quando eu digo que existe esperança, não é um discurso.
Todos temos luz e sombra. A gente muda, se transforma, se aprimora e revela o melhor que a nossa identidade neurodivergente pode proporcionar. O ambiente é muito importante nesse aspecto.
Continuo autista, e isso não é um mal ou bem em si, mas traz, inevitavelmente, impactos em minha vida, tanto negativos quanto positivos. Estar no espectro, na atual conjuntura da sociedade em que vivemos, marcada pela exclusão e o estigma, nos obriga a sermos resistência, a “transformar o veneno em remédio” (como diria o buda Nichiren Daishonin) diariamente.
Hoje, aos 22 anos, me orgulho de ser o Victor Mendonça, autista, jornalista, escritor, budista, filho, amigo e por aí vai.
Volto a citar Nichiren Daishonin: “O inverno nunca falha em se tornar primavera.”
E acrescento que muitas vezes não percebemos o real valor dos seres humanos – todos únicos, com potencial singular – escondido no frio rigoroso do inverno.
Victor Mendonça é jornalista, escritor, radialista, palestrante, youtuber e crítico de cinema. É autor dos livros “Outro Olhar”, “Danielle, Asperger”, “Neurodivergentes” e “Entre Fadas e Bruxos” e coautor de “Dez Anos Depois.” Foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) aos 11 anos. Mantém o portal “Mundo Asperger”.

O adulto autista, por uma autista

Olá, eu sou a Juliana, tenho 32 anos e sou Asperger.
Sempre quando se fala ou se procura informações sobre autismo, quase todos os dados são sobre crianças.
É como se autistas não crescessem!
Para nós que recebemos o diagnóstico tardiamente há uma carência de informações.
Mas o que posso dizer sobre mim?
Sempre fui uma criança quieta, que não sorria como as outras crianças e que tinha muita dificuldade em fazer amizades.
Na escola era a aluna exemplar da classe, que só tirava boas notas. Passei desapercebida, todos esses anos.
Para quem estava de fora, eu era a filha exemplar, sem reclamações na escola, inteligente e educada.
A versão da história sob meu ponto de vista é um pouco diferente.
Eu era a criança sozinha, que tentava se misturar com outros coleguinhas após “estudá-los” por um tempo para saber como ser do grupo.
Era a menina que sofria bullying todos os dias, que não sabia se defender e nunca se defendeu, que mesmo quando estava com outras pessoas não se sentia parte, se sentia diferente.
A Juliana cresceu e foi trabalhar.
Tinha que falar no telefone e eu odiava, mas minha rigidez de pensamento dizia que eu tinha que trabalhar e tinha que aprender a lidar com essas dificuldades.
Fiz faculdade e conclui emocionante desgastada.
Trabalhei por anos em outros lugares, com a mesmas dificuldades, porém trazendo todas essas tempestades apenas dentro de mim.
Aprendi a me camuflar muito cedo, mas os estragos que isso traz cobrou o seu preço.
Após muitos anos, após mais um meltdown (hoje eu sei) li uma matéria sobre a síndrome de Asperger em mulheres e foi como se lesse o roteiro da minha vida. Percebi que toda essa minha dificuldade em vários aspectos, poderia ser por isso.
Busquei ajuda profissional, falei das minhas desconfianças e o diagnóstico veio.
Foi um alívio enorme!
Pude entender toda a minha vida, as  minhas dificuldades e também pude me perdoar em muitas coisas.
Estou em meu processo de autoconhecimento e aprendendo a respeitar os meus limites!
Mas nessa caminhada percebi que, assim como eu, centenas de mulheres passam a vida sem saber ou com o diagnóstico tardio.
Há muitas diferenças entre homens e mulheres Asperger e isso deveria ser melhor estudado e mais divulgado.
Precisamos falar sobre o autismo em mulheres, em adultos e cuidar dessa gigantesca parcela da população que cresceu sem um diagnóstico e que sem dúvida, nessa caminhada ainda “ganhou” outras comorbidades.
Juliana Monique Santos
Bióloga, designer e ilustradora

Eu criei um mundo quando eu não tinha amigos – Depoimento 11-Naty Souza

Eu criei um mundo quando eu não tinha amigos
Embora muitos autistas tenham dificuldade de imaginar e brincar de faz de conta, por outro lado existem muitos outros que vivem no mundo imaginário.
No meu mundo eu criei cidades, amigos, cenários, vida. Era quase impossível viver no mundo real, eu vivia quase o dia inteiro viajando pela minha imaginação. Falava e brincava sozinha, falo sozinha até hoje, na verdade rio sozinha até hoje, me divirto sozinha também.
O lado positivo e negativo de se ter um mundo imaginário é como equilibrar isso.
O lado positivo é que evoluímos muito mais interagindo com nosso mundo do que com pessoas reais. Eu tinha um amigo imaginário que gostava de debater temas de livros que líamos, na minha família e roda de amigos ninguém lia e nem suportava me ouvir falando de livros.
O lado negativo é que nosso mundo passa ser tão interessante que nos isolamos ainda mais, no meu caso eu queria fugir das pessoas, passeios, encontros em família para ir viver meu mundo e meus amigos imaginários.
O ponto de equilíbrio, só consegui isso na vida adulta, interagir com as pessoas do mundo real entendendo que fazemos parte desse mundo que muitas vezes é obsoleto e mesmo que muitas coisas sejam desinteressantes, faz parte de nós estarmos no mundo.
E me permitir ir no meu mundo imaginário, pois é parte de mim, criar, viver aventuras, construir sonhos, ter interações que nos levam a outro nível de evolução humana.
Só para constar o mundo imaginário do autista não é fuga de realidade, não é esquizofrenia, não é para ser negado.
Falamos sozinhos, brincamos sozinhos, nos divertimos sozinhos com nosso imaginário, isso é parte de nós e parte do nosso funcionamento.
Muitas vezes falamos sozinhos para gravar algumas coisas, para reviver algum diálogo que não terminamos, para treinar para próximas interações e conversas, porque desde criança criamos esse hábito pelo fato de não conseguir interação e brincar com outras crianças.
Naty Souza
Autista, influenciadora digital, escritora e ativista
P.S. Falo sozinha até hoje. Tem dias que falo mais, principalmente, os dias que estou em conflitos e ansiosa.

Depoimento Kenia Diehl

Eu sou uma pessoa descontraída, que
adora piadas, gosta de brincar como criança, mas também adora refletir sobre a
vida, conversar sobre os mistérios do mundo e navegar sobre as emoções
humanas…

Amo ler, amo escrever, adoro me exercitar
e tenho paixão por tecnologia. Também sou o tipo de pessoa “grudenta”, que se
apega fácil e dá a vida por aqueles a quem eu amo. Chego a perder a razão e
cometo exageros, como dar presentes, agrados e mensagens de carinho. Não raro
as pessoas se assustam e se afastam, porque elas não têm condições de receber
esse amor sem imaginar que estou com segundas intenções.

Eu acho o mundo e as pessoas muito
estranhas, não sei o que é ter segundas intenções, pois eu só faço o que eu
falo e eu sempre falo o que eu faço. Se estou pensando algo eu verbalizo, e é
exatamente aquilo que eu quis dizer. Se eu amo, quero agradar, fazer feliz,
demonstrar meu amor…

Às vezes me sinto como um cachorrinho
abandonado que fica mendigando atenção, de repente aparece alguém que me dá um
carinho e então eu sigo sendo fiel àquela pessoa e não percebo que ela não me
quer mais por perto. É triste viver assim e cada vez que isso acontece eu prometo
para mim mesma que nunca mais vou me deixar iludir, vou me proteger para não me
ferir. Mas ao primeiro sinal de simpatia por parte das pessoas eu logo me apego
e esqueço tudo o que anteriormente já vivi.

Não gosto de falsidade, sinto de
longe a maldade e me afasto de quem tem no coração a maldade. Não consigo reter
mágoas, não guardo vivas na memória as lembranças ruins e sei que tudo o que é
bom, belo e sincero sempre volta para mim.

Acredito em mundo melhor, adoro
conhecer o que há de mais lindo no coração das pessoas e luto incansavelmente
por inclusão. Ainda não tive oportunidade para falar em um grande canal de
comunicação, mas sei que esse dia irá chegar e então poderei disseminar todo o
amor que trago em minha mente, em minha alma e em meu coração.

Não sou uma menina qualquer, sei que
não sou “normal”, sou autista, sou guerreia, sou esposa, sou mãe e sou
escritora, não duvide do meu potencial, tem muitas coisas que não posso fazer,
mas aquilo que sei fazer ninguém é capaz de fazer melhor.

KenyaDiehl®️
Autismo é vida – me ame como sou
AutismoMake
Faça com amor, faça como um autista!

Hoje comprei uma camiseta pro Victor e me dei conta de que ele usa…

Hoje comprei uma camiseta pro  Victor e me dei conta de que ele usa o mesmo tamanho de 12 anos atrás.
Passamos por várias fases no que diz respeito a alimentação dele mas na época não sabia sobre  Transtorno Sensorial e que acomete a maioria esmagadora das pessoas com autismo. Era feeling, tentativa e erro, às vezes muito erro.
A primeira fase preocupante relacionada a alimentação foi a seletividade, por volta dos dois anos. Ele só queria comer pão de queijo e batata. Só isso! É de enlouquecer qualquer mãe.
A nutricionista que nos orientou, pediu que déssemos batata frita pra ele:
– Juliane, você frita a batata e a cada dia deixa ela um pouco mais crocante, até ficar bem torradinha. Quando chegar nesse ponto, tentamos introduzir outros alimentos.
Ela teve a sacada de que o que podia incomodar o Victor era a textura. Fomos trabalhando cores e tal, não chegamos a perfeição, mas conseguimos melhorar muito a variedade.
Depois veio a fase mais complicada até hoje, a compulsão alimentar (também ligada ao TS). Foi uma fase  ainda mais exaustiva e demorada.
Ele comia TUDO, quantidades absurdas de comida.
” Ah! É só não dar, né? Simples!”
Ele quebrou portas (no plural) , vasculhou casas, armários e bolsas. Se não tivesse comida, ele tomava água. Melhor? Não exatamente, exageros são venenos, isso inclui a água. Afinal não estou falando de 1 litro ou 2. Acreditem, não era nada simples.
Novamente tive a sorte de ter uma nutricionista que conseguiu olhar de verdade pra situação. Ao invés de trocar todos os alimentos, focou nas porções, e até hoje ele só repete em ocasiões muito especiais.
Pensando nas situações que passamos, hoje com a perspectiva do TS,  agradeço por ter feito aos poucos, por ter tido paciência e respeito. Mas vamos lá, somos (nós mães) programadas pra alimentar nossos filhos, e é muito difícil negar comida pra uma criança de 5, 6 anos, ainda mais arroz, feijão e carne. Mas tinha que ser feito, era minha responsabilidade e ainda é.
Entrando em uma nova fase de revisão e reeducação alimentar, foi bom lembrar disso pra dar perspectiva.
Juliane Santa Maria
Mãe de Victor Hugo, autista não verbal 18 anos .
Foto: @vieler.photography

ULTRAPASSANDO OS LIMITES DA SÍNDROME DE DOWN

ULTRAPASSANDO OS LIMITES DA SÍNDROME DE DOWN

            A minha vontade de cursar Educação Física nasceu do incentivo que tive na Escola de Educação Básica da URI/ ERECHIM, onde estudei  desde minha infância e que além das aulas regulares a Escola oferece diferentes esportes entre eles o Judô. Comecei a praticar Judô com 10 anos e pratico até hoje  e neste ano busco conquistar a faixa preta. 

E foi por causa da prática do Judô e de ótimos exemplos de Professores de psicomotricidade e de Educação Física que este escolhi cursar a  faculdade de Educação Física. 

Decidido isto, tinha que enfrentar o vestibular e fazer a prova igual a todos os outros candidatos sem deficiência. A Universidade que fiz vestibular não previa nada  de prova diferenciada a única coisa foi que fiz a prova separado dos outros com uma monitora que podia me explicar as questões que eu não entendia. Eu estava tranquilo porque havia treinado muito fazendo provas e redações de vestibulares anteriores. Fui mais ou menos bem no vestibular fique suplente e entrei no II semestre do ano de 2015.

Até aqui foram muitos desafios, mas aprendi com a filosofia do Judô que mais importante do que cair é aprender a levantar. Sempre tive incentivo de minha família para seguir em frente e eu seguia porque eles estavam comigo.

Não sabia direito o que ia enfrentar na faculdade, mas o meu maior medo era não conseguir acompanhar as explicações das aulas  e se meus colegas e  professores iam entender minhas dificuldades e meu jeito de aprender. 

Mas como minha mãe é professora, todo início de semestre ela conversava com os professores e me acompanhava nos estudos e trabalhos e com isto me sentia mais seguro. 

O maior desafio era entender o conteúdo de algumas matérias, por exemplo Anatomia e Fisiologia. Eu estudava muito, estudo repetitivo, tinha que achar um jeito para entender o conteúdo, por exemplo através de paródias. Mas graças a este esforço eu consegui aprovação em todas as matérias.

Nesta caminhada tive professores compreensivos e sensíveis . O apoio da coordenação do curso foi fundamental para os que os professores me entendessem e adaptassem as provas quando necessário.

Meus objetivos não encerram com a formatura.  Pretendo ser professor de psicomotricidade e dar aulas de Judô. E continuarei estudando. Em 2020 cursarei Educação Física Bacharelado.

 

Pedro Henrique Baidek, 22 anos

Graduado em Educação Física- Licenciatura

Atleta de Judô, filiado a Federação Gaúcha de Judô

 

Meu filho tem um banco

Meu filho tem um banco.

Meu filho tem 17 anos e faz pouco tempo que ele lancha na escola sem supervisão. 

Foi uma conquista para todos, principalmente para ele. 

Uma conquista pela qual ele zela, deixa claro que não quer ninguém conferindo como está nesse período. 

Ele sai da sala, pega a merenda no refeitório e depois de comer pega seu suco e corre feliz para o seu banco. 

Todos os dias.

Já sabia dessa rotina mas nunca a tinha presenciado. 

Hoje precisei buscá-lo na escola porque teve um mal-estar. Quando cheguei o vi de longe, sentado em seu banco. 

Durante o percurso que caminhei do carro até ele, cerca de 300m, o vi estereotipando, sem cessar. Batia com a palma da mão na coxa, depois com o antebraço na cabeça e assim sucessivamente. 

Confesso que me deu uma pontada de tristeza, pensei: – Olha ele lá isolado…

Quando me aproximei mais, percebi que estava sorrindo, nesse instante a dor foi embora. 

Avistei a professora de apoio, que não quis ficar longe por ele não estar bem, e ela me avisou que seria melhor esperar o sinal, afinal ele preza muito esse momento dele. 

Enquanto esperava percebi, em frente ao banco, encostada em um pilar uma menina de cerca de 8 anos. Me disseram que ela vai lá todos os dias também, faz companhia pra ele. Ela só fica ao lado dele e sorri. De vez em quando dá uma voltinha, volta com mais uma amiga, mas está sempre lá, com ele.

Na saída cruzamos com ela novamente, perguntei porque ela fazia companhia a ele no recreio, ela disse: 

– Ele pisca, ri. Ele é legal, ele é meu amigo.

Foi bem difícil ele ter um banco, levou tempo, precisou de empenho. 

Precisou que oportunizássemos para ele. E por ele ter um banco, ele tem uma amiga.

Ser mãe de uma criança especial é isso, ao mesmo tempo que se zela e cuida temos que oportunizar, dar asas. 

Algo tão simples mas que faz acordar pra todo um mundo de possibilidades. 

Se eu quero que ele vá, tenho que deixa-lo ir.

Que ele vá!

Juliane Santa Maria, depoente voluntária do grupo .

Imagem do escritor e ilustrador Paulo Brabo @saobrabo 

Naty Souza, autista, influenciadora digital, escritora e ativista ( Eu não queria ter TOD)

Eu não queria ter TOD
Eu não queria ter um transtorno
Não é fácil perder o controle
Não é fácil sentir a fúria explodindo feito vulcão em erupção
Me sinto descontrolado e totalmente julgado
Sou de tudo transtornado, mal educado, desobediente alguém que não sente
Essa é a visão que todos tem mim
Talvez eu me sinta mesmo uma criança ruim.
Dizem que eu coloco a culpa em tudo mas na verdade e que tudo tem influência sobre mim
Alguém que grita comigo, alguém que fala tom de voz ríspido, alguém que impõe ordem com tirania como se eu fosse alguém inferior, claro que vou me opor. Eu não controlo a impulsividade gerada pela superioridade das pessoas.
Grito: Tu não manda em mim!
Grito: Não vou te obedecer!
Tirania não funciona para mim.
Dizem que eu não gosto de obedecer regras como se eu fosse alguém sem valores e padrões morais
Na verdade não sabem nada sobre mim.
Eu sou a favor das regras mas sou contra a forma abusiva que as pessoas tentam colocar sobre mim.
Peça minha colaboração e não me trate como seu pequeno escravo nem como seu fantoche sem opinião.
Tenho minha própria compreensão de mundo.
Dizem que vivo me irritando como se eu fosse alguém que vive com raiva
Na verdade é que tudo me tira paz e me descontrolo
Não coloco a culpa em todo mundo é o mundo que coloca a culpa em mim
A visão das pessoas está distorcida isso elas não avaliam
Eu sofro com o TOD mas poucos vêem assim.
Já pensaram alguma vez na vida que o TOD na verdade é alguém revolucionário
Um pequeno rebelde a regras abusivas e a ditadura dos pais e a herarquia sem permissão?!
Eu obedeço com prazer todos que conquistam minha admiração.
Eu obedeço com alegria todos que conquistam meu respeito.
Tudo que for abusivo, autoritário, ditador, falado com tom de voz ameaçador, ríspido e com olhar fechado eu piro, surto e explode dentro de mim a fúria que nem eu e nem quem está minha volta controla.
Eu não queria ter TOD, ficar explodindo assim, sempre que alguém tenta mandar em mim.
As vezes sinto que ninguém me ama,que tudo sobre mim são críticas e que toda descrição é negativa.
Já tentou crescer assim?
Minha vida foi marcada por rótulos ruins, as pessoas assassinaram minha auto estima tudo porque a culpa é sempre minha.
Alguma vez na vida, além de me rotularem, tentaram ser eu por um minuto?!
Se TOD é difícil para quem está perto de mim imagine como é viver com transtorno e sofrer seus reflexos e ser julgado pela perspectiva de quem só sabe as consequências, que foi ferido, que foi machucado, mas que não sabe o peso que levo e levarei por toda vida.
Ps:.: Me tornei adulta mas os rótulos da infância ainda continuam. Sempre falam de mim, A Naty era terrível, cerca e viva com isso e depois me diga como é destruidor crescer ouvido o pior de si.
Ps.:. Minha primeira poesia sobre TOD
Naty Souza