Superando as adversidades nesse universo desconhecido que é o autismo os familiares projetam boas expectativas para seus filhos.  

Essa base familiar é fundamental como um todo!

Abaixo vamos desfrutar do texto de Eugênio Cunha, professor, psicopedagogo, doutor em educação e autor dos livros: “Afetividade na prática pedagógica”; “Afeto e aprendizagem”; “Autismo e inclusão”; “Práticas pedagógicas para inclusão e diversidade” e “Autismo na escola: um jeito diferente de aprender, um jeito diferente de ensinar”, publicados pela WAK Editora. 

 

Autismo: a família faz a diferença

Eugênio Cunha

Doutor em educação e professor. Autor dos livros “Afeto e aprendizagem”, “Autismo e Inclusão” e “Autismo na escola”, publicados pela WAK Editora.

 

Muitas vezes o autismo traz a carga do isolamento social, da dor familiar e da exclusão. É normal que os pais se preocupem, porque há relevantes alterações no meio familiar e, nem sempre, é possível encontrar maneiras adequadas para lidar com as dificuldades que aparecem. Apesar de casos de extrema severidade, famílias que conseguiram superar as adversidades, sempre projetaram expectativas positivas para seus filhos. Esse é um aspecto essencial.  

A atuação dos pais deve começar já no diagnóstico quando é possível fazer uma intervenção para um desenvolvimento melhor das habilidades da criança visando à superação de suas dificuldades. Bem cedo, a família pode estabelecer uma frutífera parceria com a escola. Uma grande ajuda vem dessa relação, em razão do enfoque na comunicação, na interação social e no afeto. Escola e família precisam ser concordes nas ações e intervenções na aprendizagem, principalmente, porque há grande suporte na educação comportamental. Significa dizer que, a maneira como o menino ou menina come, veste-se, banha-se, escova os dentes, manuseia objetos e os diversos estímulos que recebe para o seu contato social precisam ser consoantes nos dois ambientes.    

Se na escola, durante as refeições, utilizam-se os utensílios sem ajuda, assim deverá ser feito em casa. Se em casa, os pais deixam a criança se vestir sozinha, na escola far-se-á o mesmo. Esses ambientes, apesar de diferentes fisicamente, devem ser similares em objetivos e práticas educativas.

 Este é um grande desafio para o sucesso das intervenções e da educação da criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA). É preciso projetar coisas positivas para o filho e, no caso da escola, para o aluno. É preciso trabalhar para a inclusão social. Ensinar para a família é fortalecê-la como núcleo básico das ações inclusivas e de cidadania.

No espaço familiar, os afazeres e a rotina podem ser ferramentas eficazes para gerar a autonomia. Normalmente, há uma tendência no autista de se fixar em rotinas. Esta tendência pode ser usada a seu favor quando os pais a usam como reforço comportamental na organização do dia, fixando horários de café, almoço, jantar e banho. Todavia, as rotinas precisam ser quebradas quando facilitam atitudes prejudiciais.

O ideal, em qualquer contexto educacional, é a liberdade mediada pela responsabilidade e os limites estabelecidos pela tolerância. A disciplina sem amor e o amor sem disciplina são inócuos.  É necessário, então, desenvolver o desejo pela disciplina em razão da segurança que os limites produzem. A disciplina com amor compreende uma imersão espontânea à harmonia interior do indivíduo.

Crianças ou adolescentes com autismo nem sempre sabem estabelecer um divisor comportamental entre a família e a escola. Normalmente, seguem o mesmo comportamento nos dois ambientes. O que a escola e a família necessitam fazer é criar momentos afetivos que estimulem o comportamento adequado, com atividades lúdicas e prazerosas.

A participação da família na educação da pessoa com autismo tem sido fundamental também nas políticas públicas. Não é por acaso que a Lei 12.764/12, que garante direitos fundamentais à pessoa com TEA ganhou o nome de uma mãe: Berenice Piana.

Nos últimos anos, os debates acerca do autismo ganharam visibilidade. A exposição do tema na mídia e nas redes sociais disseminou informações que têm aclarado um pouco mais esse campo de estudos, ainda desconhecido para a maioria das pessoas. A luta pelos direitos da pessoa com o transtorno obteve relevantes vitórias. Há ainda grandes desafios em razão de muitos casos de exclusão social e escolar, que comumente lutam contra as esperanças dos pais.

Entretanto, quando não desistimos, nossos sonhos e desejos florescem e descortinam os processos de resiliência. Quanto mais nos tornamos suscetíveis a esses processos, mais ficamos motivados a prosseguir e a construir interações com o nosso entorno, independentemente das dificuldades. Decerto, a inclusão começa na família, que pode fazer a diferença na construção de uma sociedade mais justa e mais cidadã.