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Arquivos por ano2019

Mais um ano chegou ao final, e gostaríamos de agradecer as trocas…

Mais um ano chegou ao final, e gostaríamos de agradecer as trocas de experiências e de conhecimentos e o apoio incondicional à nossa caminhada inclusiva.

Também,  pedimos que mantenhamos nosso propósito inclusivo nas festividades de final de ano, pois a inclusão não tira férias.

Continuemos incluindo todos, em todos os ambientes e em todos os momentos festivos, sejam eles na empresa, na família ou na roda de amigos.

Desejamos que 2020 seja repleto de  realizações e que sigamos acreditando que a informação tem o poder de evidenciar a potencialidade de cada pessoa e de transformar a realidade a que ela pertence.

Grupo de Apoio Educacional AutismoS

Não tente me curar. Naty Souza, 33 anos, escritora e autista.

Não tente me curar.
Eu não sou um vírus, sou uma PESSOA.
Eu não sou doença,  sou DIFERENTE.
Eu não sou contagioso, sou AMOR.
Não tente me curar, tente me compreender.

Tantas coisas para curar no mundo…
Cure sua ignorância.
Cure seu preconceito.
Cure sua falta de empatia.
Cure sua arrogância.
Cure sua intolerância.
Cure sua vida.

Não  tente me curar, não me sinto doente.
Não tente me curar, meu autismo faz parte de mim.
Como a cor da sua pele, como a forma do seu rosto, como a estrutura do seu DNA.
Não tente me curar, não me sinto doente.

Não tente me curar, eu não sou uma ameaça.
Não tente me curar, eu não sou um laboratório.
Não tente me curar, se todos iguais a mim pararem de existir.
A vida na terra acaba sem evolução.

Sem tecnologia, sem equações, sem fórmulas, sem invenções.
Pois, embora diferentes pessoas autistas são habilidosas.
Somos evolução não precisam ter medo do que diferente.
Apenas entender que evoluir é  aceitar a diversidade.

Não tente me curar…

Naty Souza, 33 anos, escritora e autista.

Depoimento de Ana Moser

Depoimento de Ana Moser, tabeliã substituta e mão do João Antônio, 8 anos, autista.

Meu nome é Ana, sou mãe do João Antônio, 8 anos, diagnosticado aos 3 anos com autismo.

O João Antonio foi muito esperado, minha gravidez foi muito tranquila, e ele nasceu em 10.06.2010 com 3,950kg e 51 cm, e sem nenhuma complicação. Foi amamentado até um ano e quatro meses, período que começou a andar. Até ele completar um ano tudo acontecia normalmente.

Comecei a notar um menino mais quieto, já não balbuciava, fazia pouco contato visual, e já não respondia aos chamados.

Coração de mãe começou a se preocupar e dividi a angústia com a família, que não me deu crédito. Mas pesquisei sobre o assunto e o autismo se caracterizava cada dia mais no desenvolvimento do João.

Com um ano e seis meses procurei um neuropediatra, que não deu o diagnóstico. Mas, mesmo assim, comecei as intervenções com fonoaudióloga e psicopedagoga. E aos três anos obtive o diagnóstico do neuropediatra.

João Antonio adora as terapias, faz música, natação, fonoaudióloga e psicopedagoga que são acompanhadas pela babá/amiga que está sempre estimulando com passeios na rua, parque, padarias, mercados e lugares com muita gente circulando. Ele adora!

Na escola tem a professora auxiliar que lhe dá todo o suporte para acompanhar sua turma. Quando chegamos do trabalho complementamos o dia do meu anjo com muita brincadeira e muito amor, porque de nada adianta todas as intervenções se elas não estiverem acompanhadas de AMOR.

Até hoje não sei de onde tirei as forças que tive quando suspeitei da condição do meu filho.

Só sei que ACEITEI de imediato, e encarei como um desafio, onde o objetivo era vê-lo feliz e se desenvolvendo a cada dia. Comemorando a cada conquista por menor que fosse.

Não aceito mais que coloquem barreiras em seu desenvolvimento, ouvi de um médico: “ele não terá coordenação para andar de bicicleta..”. Ignorei-o e compramos uma bicicleta, e com muita paciência e amor, o João aos 5 anos começou a andar de bicicleta. Dois meses depois já pediu para tirar as rodinhas e hoje é o passeio preferido dele com o papai.

O que quero dizer é que nunca podemos aceitar sem lutar.

É cansativo, tem muitas lágrimas, muitas frustrações, mas também muitas alegrias em cada conquista.

E não estamos sozinhos, os que ficam do seu lado são só os melhores, aqueles que te energizam com uma palavra, com um apoio emocional, pois o que é ruim é filtrado naturalmente.

GRATIDÃO é a palavra que hoje simboliza minha vida desde que o João nasceu.

Sou uma pessoa melhor, conheci pessoas maravilhosas que nem sabia que existiam.

Desde família, terapeutas, professores, mãezinhas azuis mais que especiais que só vieram a acrescentar na minha vida.

E concluo com outra palavra: RESPEITO, que é um direito nosso de exigir, e não podemos aceitar menos que isso.

A matrícula escolar para pessoas com TEA , é um direito amparado por…

 

Matrícula escolar & TEA
A matrícula escolar para pessoas com TEA é um direito amparado por lei.
Todo indivíduo tem o direito à educação sendo ele autista ou não.
As escolas devem acolherem e ampararem todos, independentemente de suas condições sociais, físicas, intelectuais, emocionais, crenças etc.
A inclusão inicia na matrícula escolar, no primeiro contato pais, aluno e escola.
A escola tem o dever de oferecer um ambiente onde os alunos autistas sintam-se acolhidos, respeitados e recebam as mesmas oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento que os demais alunos.
O ambiente escolar apresenta papel fundamental, no desenvolvimento de qualquer criança, e no caso dos autistas, muito mais! Isso fará total diferença na vida acadêmica do aluno!
Nossa legislação rege que é direito da criança com autismo a garantia de matrícula em escola regular e, sempre que necessário, professor auxiliar em sala de aula, que deverá ser custeado pela instituição de ensino e de material adaptado, como dispõe o art. 3.º, parágrafo único da  Lei 12.764/12, (Lei Berenice Piana) em casos de comprovada a necessidade.
A comprovação da necessidade pode ser feita através de laudo médico.
O Decreto 8.368/14 regulamenta que acompanhante especializado é aquele que realiza apoio às atividades de comunicação, à interação social, à locomoção, à alimentação e aos cuidados pessoais das pessoa com TEA.
Nenhuma criança deve ser privada de seus direitos!
Dispomos, também, da Declaração de Salamanca (1994), reconhecida mundialmente como um dos mais importantes documentos na educação inclusiva, que enfatizava de forma quase redundante que “educação para TODOS”.
A Constituição Federal, estabelece que a educação é dever do Estado e deve garantir, dentre outras coisas, o “atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino” (art.208, III).
O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990), relativamente à educação, em seu artigo 54, III, também, assegura à criança e ao adolescente portador de deficiência, atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino.
As sanções aos gestores que negarem a matrícula a estudantes com deficiência será o pagamento de três a 20 salários mínimos e, em caso de reincidência, levará à perda do cargo.
É preciso mais do que a aprovação de uma lei, para que a inclusão seja garantida.
Deve-se rever as políticas públicas, de modo a garantir aos educadores os conhecimentos através de formações continuadas necessárias para que os alunos não só sejam matriculados, mas também tenham garantido seu direito de aprender.
A educação inclusiva é um processo contínuo e dinâmico, que implica a participação de todos os envolvidos,
mobilizando o diretor, funcionários, pais e alunos, de modo a envolvê-los num todo, pela inclusão, na qual as diferenças são respeitadas e utilizadas em prol da aprendizagem e na valorização do indivíduo sendo ele autista ou não.
Educação é um direito de todos!
Adriana Silva Ferreira

Voluntária do grupo; palestrante; bacharela em Direito (Uniasselvi), graduanda em pedagogia (A.C.E); pós-graduanda em Direito de família (F.G.V) e em Neuropsicopedagogia (Uniasselvi). Mãe de João Vitor, jovem com TEA e X Frágil.

Enviado do meu iPhone

Kaká Koerich Lobe, ativista Autismo, mãe do Pedro 11 anos e Matheus 6 anos

Em Agosto de 2014, nosso filho tinha 1 ano e 9 meses e parecia uma criança completamente “normal”!

Fomos surpreendidos com o diagnóstico do TEA – Transtorno do Espectro Autista e ficamos completamente apavorados, com muito medo, imaginando que nosso filho jamais falaria, seria completamente dependente e que nada poderia ser feito!

Mas o TEA – Transtorno do Espectro Autista tem vários níveis e os casos graves são os mais raros. 
Na grande maioria NÃO HÁ deficiência intelectual.

Era nosso “preconceito”, ou melhor, a nossa falta de conhecimento em relação a este transtorno que nos deixou tão transtornados!

Mas começamos o tratamento com fonoaudióloga, musicalização e terapias comportamentais intensivas, além de estímulos constantes na rotina. Então nosso filho começou a falar, se relacionar, atender a comandos, etc.

Nossa maior sorte foi receber o diagnóstico tão cedo, pois “quando a intervenção é realizada em crianças menores de 3 anos, a melhora é de 80%…”, afirma o coordenador de Serviço de Atendimento e Psiquiatria Infantil da Santa Misericórdia do Rio de Janeiro. 
 No entanto, acrescentamos que, de acordo com o jornal Pediatrics, pesquisadores afirmam que crianças podem desenvolver a linguagem durante o ensino fundamental ou até na adolescência.

Nosso primeiro neuropediatra recomendou que mantivéssemos segredo sobre o transtorno, para evitar que o Matheus fosse rotulado desnecessariamente.

No entanto, gostaríamos que outras crianças tivessem a mesma oportunidade, por isso nossa determinação em DIVULGAR o que é o Autismo, como TRATÁ-LO, a importância do diagnóstico precoce e da imediata iniciação do tratamento, ainda que não se tenha certeza do fechamento do diagnóstico! Estamos convictos de que o Matheus veio com esta missão, e por isso decidimos seguir este caminho!

O Autismo já é reconhecido por alguns órgãos como a maior epidemia do Planeta, pois é mais comum que câncer infantil, diabetes e Aids.  Conforme publicado Revista Crescer: “As novas estatísticas do Centro Nacional de Saúde e Estatística mostram que o número de crianças norte-americanas afetadas pela desordem do espectro autista (DEA) aumentou consideravelmente no último ano. Na última medição, uma em cada 88 crianças tinha o transtorno, agora, esse número aumentou para uma em cada 50.”

Com evolução de seu tratamento ficamos ainda mais motivamos de divulgar ao máximo tudo que aprendemos, afim de beneficiar o maior número de pessoas possível! Aos poucos, fomos direcionados para os melhores especialistas, desmistificando o transtorno e aprendendo o que deve ser feito para estimular a linguagem e a interação. Nosso principal objetivo aqui é transmitir esse conhecimento.

E para nossa felicidade, após 2 anos de tratamento, pouco antes de completar 4 anos, o Matheus recebeu alta de seu neuropediatra e SAIU DO ESPECTRO DO AUTISMO! Afinal, sua linguagem e interação se desenvolveram de forma incrível, persistindo apenas alguns traços, os quais vamos continuar tratando, através de terapias para seu desenvolvimento adequado.

Desta forma, procuramos através do site www.autistologos.com e do Instagram @autistologos_autismo divulgar o que pode ser feito pelos pais em casa, os direitos dos autistas, recomendamos filmes, livros, aplicativos, a lista de profissionais responsável pelo tratamento do Matheus, etc. Afinal, na época em que recebemos a notícia, nos sentimos de mãos atadas, sem saber como contribuir para o desenvolvimento de nosso filho.

Esperamos contribuir de alguma forma para que as crianças portadoras desse transtorno possam receber um tratamento efetivo.

Ainda que seja raro sair do Espectro, um tratamento adequado e intensivo certamente são capazes de mudar o futuro de nossas crianças, amenizando e revertendo grande parte dos sintomas!

Nosso grande sonho é que todas as crianças portadoras deste transporto possam receber o diagnóstico precoce e o tratamento e estímulos adequados.

Kaká Koerich Lobe
Ativista Autismo, mãe do Pedro 11 anos e Matheus 6 anos. 17

A Terapia é Viver – Eleandra Barbieri

A Terapia é Viver
Logo chegaremos no período de férias e teremos pais que entram em “parafuso”, pois não sabem o que fazer com tanto tempo livre, ou pais que respiram aliviados com os filhos em casa.
E, nada muda, quando pensamos em filhos atípicos.
Mas temos que pensarmos na rotina puxada de atividades que nossos filhos têm.
Eles também precisam de um momento para respirarem e aqui, deixo a reflexão: A TERAPIA É VIVER.
Pensar fora do padrão, sem lugar fechado, sem mesinha…
Pensar neste mundão de cheiros e gostos que estão disponíveis.
É claro que temos que percebermos, se seus filhos têm rotina rígida, questões sensoriais muito graves.
Neste caso, por que não pensarmos no quintal de casa, como um mundão a ser explorado?
Pise e role na grama, sinta o chão, a terra, a areia. Banho de mangueira, banho de chuva, sentir o vento.
Explore sua cozinha, faça um bolo…esconda tesouros na sua casa….faça um piquenique no jardim, ou no meio da sala…
Se seu filho gosta, explore parques, natureza, praia…viagens…explore locais que nenhum de vocês conheça.
Sintam juntos, o frio na barriga que um lugar novo proporciona.
Se precisar, monte histórias sociais, use o calendário, ou deixe para contar mais próximo ao evento… (Já perceberam quantas coisas podem ser trabalhadas?)
Aproveite, use o mundão, para estimular atenção compartilhada, estimular a comunicação…seu filho é não verbal? Estimule os gestos, a comunicação aumentativa alternativa, estimule o apontar. Seu filho fala? Que tal estimular melhor seu discurso? Use e abuse dos recursos que a VIDA nos dá!
E se, por ventura, não der certo (sobrecarga sensorial? Ansiedades? Crise?): RESPIRA!!
Volta pra casa, diz que está tudo bem.
Amanhã é outro dia e lembre-se: para um grande salto, precisamos dar dois passos para trás!
Mas em hipótese alguma DESISTA.
Viver é estimular…
Viver é terapia…
Terapia é viver….
Boas férias
Para nossa região: temos parques lindos na região, praias lindas, usem sem moderação!
Eleandra Barbieri

 

Depoimento de Lidiane Kriger

Depoimento de Lidiane Kriger, administradora e mãe do Arthur, 5 anos, autista.
Após muitos anos de união, percebemos que estava na hora de buscarmos a experiência de sermos pais.
Depois de algumas tentativas frustradas, finalmente recebemos o tão esperado beta positivo.
A gravidez transcorreu bem e em janeiro de 2014 nascia nosso bem mais precioso, saudável e perfeito.
Nesta época, morávamos em uma cidade, onde todos os bebês faziam um acompanhamento de desenvolvimento infantil de forma gratuita numa entidade anexa à APAE.
Durante o primeiro ano do Arthur estava tudo caminhando de maneira normal. Quando ele estava com 1 ano e meio, aproximadamente, em uma dessas consultas nessa entidade, relatei que ele: quase não atendia quando era chamado; não fazia tchau e nem jogava beijinho; não gostava de ambiente com muito barulho, fica assustado e chorava muito com um Parabéns em festas de aniversário. Mas meu relato foi em resposta às perguntas que a neuropsicopedagoga fazia, e não por uma desconfiança minha.
Aproximadamente com 1 ano e 10 meses retornamos a essa entidade para a consulta e também para um exame de audiometria.
Nesse exame, como já era esperado, não havia nenhum problema de audição. Mas nos disseram que pelas observações feitas na unidade e com base nos meus relatos, meu filho possuía características do espectro autista.
Acredito que aquele foi o dia mais difícil da minha vida. Naquele momento nem conseguia sentir meu corpo. Demorei para processar o que estava acontecendo, o que estava ouvindo. Chorei muito. Fiquei com muito, muito medo do futuro. Fui procurar informações na internet e só piorou meu estado. Sorte que, duas semanas mais tarde, conseguimos a primeira consulta com uma neuropediatra (dezembro de 2015) e ela nos tranquilizou um pouco. Orientou-nos  para que fizéssemos acompanhamento com uma fonoaudióloga, pois Arthur falava pouquíssimas palavras, e essas somente nós (pai e mãe) entendíamos. Em contrapartida, Arthur já conhecia as cores e numerais até 10.
Em janeiro do ano seguinte completou 2 anos e em fevereiro iniciou sua vida escolar. Em março daquele ano quando retornamos a neuropediatra, ele havia progredido espantosamente, e já conseguia falar mais palavras. Embora ainda soltas, mas bem mais claras. Inclusive falava o nome das cores e os números. Continuamos com a fonoaudióloga durante todo o ano e em dezembro ele teve alta, com um vocabulário diverso compatível com sua idade. O desenvolvimento dele a partir da escola e das intervenções foi fantástico. E aos 3 anos e meio foi fechado o diagnóstico como Autismo Leve de funcionalidade (grau I).
No momento, Arthur tem 5 anos, já fez terapia ocupacional por um período e atualmente faz terapia comportamental. A maior dificuldade agora é a rigidez de pensamento (teimosia, rs) e a falta de empatia.
Dificuldades, incertezas e medos sempre existirão.
Hoje, não sofro mais por antecipação.
Busco sempre fazer o melhor por ele todos os dias, para que consigamos resultados positivos no futuro.
É com certeza, um trabalho de formiguinha… devagar e constante. Mas muito, muito recompensador.
Arthur é um menino amoroso, sorridente, falante, inteligente, curioso, questionador e argumentativo. Adora a escola e os amigos. Adora ir ao shopping, ao cinema, brincar com eletrônicos e assistir televisão. Fala inúmeras vezes no dia que me ama… me enche de beijos e abraços. Conversamos muito, e espero que ele tenha em mim sempre um lugar de aconchego, de amor, de apoio, de confiança.
À noite, antes dele dormir, sempre conto histórias. E algumas vezes, a história é sobre a chegada dele em minha vida.
E digo sempre que Jesus escolheu o melhor menino que ele tinha para ser meu filho e que o amo muito, muito, muito e mais um pouco.

Quando as pessoas acham que ser AUTISTA é um peso

Quando as pessoas acham que ser AUTISTA é um peso.

Quando eu noivei, todos estavam preocupados comigo, mas também demais preocupados com meu ex-noivo.

Embora ainda eu não tivesse diagnóstico, tinha toda uma história de limitações e crises, dificuldades e singularidades, coisas bem diferentes de todos as outras em minha volta.
Todos me enchiam de perguntas e isso me sufocava.
– ELE SABE DE VOCÊ?
Se referindo as minhas dificuldades.
– JÁ EXPLICOU PARA ELE SEU PROBLEMA?
Como se fosse carregar um peso para o resto da vida.
– CONTOU SOBRE SEU JEITO?
Como se o que eu sou de fato fosse algo muito muito sério ao ponto de não merecer uma vida como todo mundo.
Já tentei explicar que sou DIFERENTE, que tenho limitações, que não serei uma mãe comum e que não serei uma mulher como todas as outras, mas que sou amiga, parceira, que tenho valores, responsabilidade e compromisso.
As pessoas viam como se meu ex-noivo fosse uma boa pessoa amando uma pessoa igual a mim, que talvez ninguém mais iria me aceitar, sabe o que é pior?
Por alguns momentos também pensei isso. Mas na verdade era que eu que estaria fazendo um “FAVOR” a ele.
Um homem de 30 anos, imaturo, mimado, não sabia fazer nada sem a mamãe, nunca teve compromissos na vida, responsabilidades.
E, eu, a “ANORMAL”, estava muito amadurecida, com responsabilidade de cuidar dos meus pais, de sustentar minha família, de cuidar das dispersas, finanças e problemas reais de adultos.
Vi que eu teria sérios problemas, pois eu estava evoluída demais.
Sentei com ele disse: – Não poderei ser sua mãe. Infelizmente terás que crescer para me acompanhar. Estou disposta a lhe ajudar no seu crescimento. Serei sua esposa, amiga, parceira, mas jamais mãe, estamos entendidos?!
Quando temos uma deficiência seja ela qual for, as pessoas tendem a achar que os parceiros, SEM DEFICIÊNCIA, é que levam toda a carga, que terão que lidar com o peso e responsabilidade da nossa deficiência e limitações, nos colocam como peso e impotentes diante de tudo.
Na verdade ter uma deficiência e namorar, casar com alguém sem, não é para ser colocado no parceiro um rótulo de ” Ele (a) é incrível por aceitar sua deficiência “.
Pessoas deficientes podem ser tão capazes e preparadas para uma relação que o parceiro (a) sem deficiência pode ser o problema, sério problema. Pois, acontece que pelas nossas limitações aprendemos a lutar, se adaptar e superar, amadurecer e nos tornamos fortes, enquanto o outro que nunca teve dificuldades se torna limitado e imaturo. Bem sério isso.
Acho que as perguntas e preocupações deveriam ser DIFERENTES, não sobre MEU ex está preparado para casar com uma pessoa com deficiência, mas se eu estava preparada para casar com alguém que não tinha estrutura nenhuma para me acompanhar, pois estava muito a frente dele em Tudo.

P.S: Ser deficiente não nos torna menos que ninguém.

Naty Souza, 33 anos, escritora e autista.

Depoimento de Graziella de Souza

Graziella de Souza, dona de casa, mãe dos gêmeos de 5 anos, Brenda e Bernardo, menino autista e com surdez moderada.

– Parabéns papai e mamãe são gêmeos! Foram as palavras do meu obstetra no primeiro ultrassom. Meu esposo quase caiu da cadeira e eu não sabia se era realidade ou um sonho, nos pegou tão desprevenidos. Saímos do consultório agradecendo a Deus e ligando para todo mundo para darmos a boa notícia.

Foi uma gestação muito tranquila, porém Bernardo e Brenda vieram ao mundo com 29 para 30 semanas. Muito prematuros e pesando pouco mais que 1200 kg.

Foram longos cinquenta dias na UTI até ganhar alta e virmos pra casa.

Tudo corria muito bem até que com seis meses de vida a pediatra notou que havia algo diferente e me pediu para repetir o teste da orelhinha. O exame da Brenda deu normal e o do Bernardo apresentou perda auditiva.

– Mas como assim meu filho não escuta? Isso mesmo teve diagnóstico de surdez moderada a severa.

Meu coração de mãe ficou despedaçado, mais não tive tempo para lamentar ou reclamar. Juntei todas as minhas forças e parti para reabilitação.

Tudo caminhando como tinha que ser, Be já estava usando os aparelhinhos auditivos, escutando e logo começaria a falar. Mas não foi bem assim. Os profissionais que o acompanhavam tinham inúmeras dúvidas:

– Mãe,  acho que ele não olha porque não escuta. Vamos darmos mais um tempo. Falar demora mesmo e tem ainda o tempo da privação. Ele só é agitado porque não ouve bem.

Enfim, foram muitas opiniões que se confrontavam. Bernardo não fazia contato visual, não falava e nem respondia a chamados, não brincava de forma funcional e me usava como ferramenta o tempo todo para conseguir o que queria, não interagia nem socializava com as outras crianças e era um pouco seletivo na alimentação.

E aos dois anos e nove meses fechou-se o diagnóstico de autismo com surdez associada. Este ao mesmo tempo em que tirou meu chão, transformou-me em uma muralha e me fez uma fortaleza para recuperar o meu filho amado.

Começamos com todas as intervenções possíveis, muito estímulo, paciência, amor e principalmente muita fé em Deus. E hoje posso dizer com convicção que o autismo não nos venceu. Mês que vem eles completam cinco anos. Be já escuta e compreende quase tudo, está aprendendo a nadar, falando e se comunicando muito bem, desfraldado e quase iniciando a alfabetização.

Ainda teremos inúmeros desafios. Mas conto com uma família empenhada, com uma maninha tagarela, carinhosa e decidida a ajudar o irmão nas suas dificuldades. Com um pai carinhoso, companheiro e pulso firme para ensinar e educar da forma mais correta. Com avós que não se cansam de paparicar, abraçar e beijar os netos, que para eles, são tudo. E, conto, também, com uma equipe multidisciplinar que trabalha com muito empenho amor e dedicação.

Poderia ter presente de aniversário melhor que esse?! Gratidão a Deus por me escolher para essa linda jornada, meus filhos são dádivas, meus tesouros mais preciosos e amo minha família!

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Ensino com Empatia – Eugênio Cunha

Ensino com empatia

Eugênio Cunha

Enquanto você está lendo as primeiras palavras deste texto, seu cérebro está processando sensações, informações, sentimentos e dando significado a tudo que é percebido pelos seus canais sensoriais. Num fugaz momento, ativa-se diversas regiões do córtex cerebral para produzir conhecimento.

Podemos não perceber, mas isso acontece todos os dias, em todos os momentos. Trata-se de aprendizagem. Independentemente de dificuldades ou deficiências, todos, ao seu modo, têm capacidade de realizar essa dinâmica cognitiva complexa e sofisticada.

Penso que o desconhecimento desses processos sinápticos, tem trazido entraves à inclusão escolar e social, pois há ainda quem ache que algumas pessoas não são capazes de aprender.

Resolvi escrever sobre esse assunto, porque vejo ainda que muitos autistas, bem como pessoas com outras deficiências ou dificuldades, impedidas de terem acesso ao ensino comum, porque se questiona sistematicamente suas condições de aprendizagem.

Em muitos casos, mesmo aqueles estudantes que têm altas habilidades são considerados incapazes, porque não se adequam ao sistema escolar.

Fato corriqueiro da educação infantil ao ensino superior.

Para que a educação ocorra, é preciso que haja empatia em quem aprende e, principalmente, em quem ensina.

Ter empatia significa ter a capacidade de impregnar-se da humanidade do ofício educativo; de partilhar emoções e significados.

Em outras palavras, colorir e fazer parte do mosaico da vida, dos matizes que nos permitem estabelecer relações de equidade.

É possível que o autista desenvolva suas competências em sala de aula, desde que – como já dizia Paulo Freire – as práticas pedagógicas estejam impregnadas de sentidos.

Não se deve desprezar a inteligência de ninguém, mesmo nos casos de maiores comprometimentos intelectuais.

Pesquisas mostram que a capacidade cognitiva e o comportamento são os dois fatores mais determinantes para a exclusão escolar.

As instituições educacionais e a sociedade precisam entender que a inteligência é da natureza humana. Trata-se de uma indelével condição biológica.

Ninguém está destituído desse especial atributo.

Ademais, educar o aluno com autismo é construir um percurso pedagógico, em que primeiramente aprendemos e depois ensinamos.