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Meu filho tem um banco

Meu filho tem um banco

Meu filho tem um banco.

Meu filho tem 17 anos e faz pouco tempo que ele lancha na escola sem supervisão. 

Foi uma conquista para todos, principalmente para ele. 

Uma conquista pela qual ele zela, deixa claro que não quer ninguém conferindo como está nesse período. 

Ele sai da sala, pega a merenda no refeitório e depois de comer pega seu suco e corre feliz para o seu banco. 

Todos os dias.

Já sabia dessa rotina mas nunca a tinha presenciado. 

Hoje precisei buscá-lo na escola porque teve um mal-estar. Quando cheguei o vi de longe, sentado em seu banco. 

Durante o percurso que caminhei do carro até ele, cerca de 300m, o vi estereotipando, sem cessar. Batia com a palma da mão na coxa, depois com o antebraço na cabeça e assim sucessivamente. 

Confesso que me deu uma pontada de tristeza, pensei: – Olha ele lá isolado…

Quando me aproximei mais, percebi que estava sorrindo, nesse instante a dor foi embora. 

Avistei a professora de apoio, que não quis ficar longe por ele não estar bem, e ela me avisou que seria melhor esperar o sinal, afinal ele preza muito esse momento dele. 

Enquanto esperava percebi, em frente ao banco, encostada em um pilar uma menina de cerca de 8 anos. Me disseram que ela vai lá todos os dias também, faz companhia pra ele. Ela só fica ao lado dele e sorri. De vez em quando dá uma voltinha, volta com mais uma amiga, mas está sempre lá, com ele.

Na saída cruzamos com ela novamente, perguntei porque ela fazia companhia a ele no recreio, ela disse: 

– Ele pisca, ri. Ele é legal, ele é meu amigo.

Foi bem difícil ele ter um banco, levou tempo, precisou de empenho. 

Precisou que oportunizássemos para ele. E por ele ter um banco, ele tem uma amiga.

Ser mãe de uma criança especial é isso, ao mesmo tempo que se zela e cuida temos que oportunizar, dar asas. 

Algo tão simples mas que faz acordar pra todo um mundo de possibilidades. 

Se eu quero que ele vá, tenho que deixa-lo ir.

Que ele vá!

Juliane Santa Maria, depoente voluntária do grupo .

Imagem do escritor e ilustrador Paulo Brabo @saobrabo 

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